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HERMANO VIANNA

Um gênero saído do gueto, por Tárik de Sousa

"(...) O mistério do samba também rebobina cenas de um Rio de Janeiro pré-cidade socialmente fraturada. O mulato Sinhô era professor do almofadinha Mário Reis, que comprava sambas de Ismael Silva, parceiro do classe-média Noel Rosa, o mesmo que subia morros e era capaz de dormir no barraco de Cartola, amigo de farras. Hermano examina também a questão do purismo atribuído ao samba, um ritmo sabidamente híbrido, sintetizado, na onomatopéia de Ismael, no célebre "bum bum paticundum prugurundum". O livro discute a questão do nacionalismo musical a partir da "americanização" de Carmem Miranda, da influência do jazz na bossa nova até desembocar em seu tema inicial, o rock brasileiro. Chega a tendências mais recentes como a mangue beat, antropofagia contemporânea que descende de Oswald de Andrade e do onipresente Freyre.

Como bom antropólogo, Hermano espeta mais perguntas que respostas na cabeça do leitor. Lança dados, mas não entra na gênese do mistério do samba, sua empatia com a população branca, nem examina a diluição atual no mercado via suingue ou sambanejo, enquanto um funk inspirado na vertente americana do Miami bass toma o lugar do antigo gênero no gueto. E como a história se repete no papel de farsa, é assimilado de volta pela juventude da Zona Sul interessada em cerzir a fratura exposta da ex-capital ainda geradora de fatos nacionais. Como dizia o gaúcho Lupicínio Rodrigues, citado por Hermano, diferenciando-se, como cultor do samba, do conterrâneo Teixeirinha. "Eu faço música popular, ele faz música regional". "
In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 19/08/1995.

Reino da dança

"(...) O Mundo Funk Carioca foi escrito originalmente como dissertação de mestrado do autor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para chegar às livrarias, foi sensivelmente ampliado e modificado. Numa manobra pouco ortodoxa, mas eficiente, o autor concentrou quase toda a conceituação antropológica de sua pesquisa num só capítulo de 21 páginas. Ele aconselha o leitor a pular o capítulo caso não esteja interessado em considerações acadêmicas. No restante do livro, num relato quase jornalístico, em que não se furta a falar na primeira pessoa para contar os percalços de sua pesquisa de campo, Vianna descreve com riqueza de dados e minúcias o mundo dos bailes funk, seus freqüentadores, animadores e personagens-chave. Numa linguagem acessível, freqüentemente bem-humorada, descortina um microcosmo surpreendente e fascinante da vida cultural do país.

(...) Em sua análise do sucesso dos bailes funk, Hermano Vianna chega a pelo menos duas conclusões interessantes. A primeira delas é que esse sucesso desmantela a tese de que os grandes meios de comunicação de massa controlam a realidade cultural das grandes cidades do país. O funk americano não está na televisão, não toca nas rádios – com raríssimas exceções – e não é lançado pelas gravadoras, mas é a principal forma de lazer de milhares de jovens. A segunda é que o mundo do funk coloca em questão a idéia de que a classe média brasileira é dominada pelos modismos internacionais, enquanto às classes menos favorecidas caberia a preservação das raízes culturais do país. "O jovem que mora no Morro do Juramento", escreve Vianna, "recusa o papel de Policarpo Quaresma que lhe foi atribuído por alguns 'sinceros' defensores da cultura brasileira." Os jovens freqüentadores dos bailes funk, segundo o autor observa, gostam de samba, mas não têm qualquer compromisso com a preservação de raízes ou com o nacionalismo. E tampouco com o funk, que para eles é apenas a melhor música para se dançar."
in: Revista VEJA. São Paulo, 11/05/1988.