ENCONTRO MARCADO    
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LYGIA FAGUNDES TELLES

"Beijo seus pés e neles enxugo as lágrimas que não param de correr. Comecei chorando baixinho e agora estou aqui aos berros tenho ódio de chorar porque me estraga a cara que tem que ficar em ordem apostei tudo nela está me ouvindo. Mas agora tenho que berrar tem vento mas grito mais alto do que ele ô!... Ôooooo!... Rolo nas nuvens e caio num fio dental que me apara na gangorra tem uma moça de porcelana branca na outra ponta eu subo e ela desce. Vestida de primavera em que jardim ela estava? Tira flores do cesto que está no colo e as flores têm aquele arame que vara a corola não estas flores não. Essas não eu digo e ela começa a cantar Fui andando pela ponte a ponte estremeceu seguro a minha com a ponta da língua água tem veneno maninha quem bebeu morreu. Mas eu não bebo eu não que já sei eu não! grito e ela saiu dançando pra se encontrar com as irmãs que descem o gramado de mãos dadas. São tão brancas e leves com os vestidos de porcelana uma dizendo eu sou o verão e mais a outra encapuzada dizendo. A musiquinha é feita dos sinos de Lorena e fala na alegria de cada estação ah quero essas estátuas no jardim da minha casa "somos as quatro estações as quatro irmãs!" Agora a encapuzada chegou bem pertinho de mim e arrancou o capuz. Sorriu. Não tem os quatro dentes. Escondo a cara no lençol mas ouço o riso da formigona desdentada com sua boca de fenda. Se eu pudesse. Não tem importância. Nenhuma importância diz o anão que passa. Pisca pra mim. Puxo sua barba e rolamos na maior alegria ô como te amo. Arranco o cigarro da sua mão e subo com a fumaça pelo cone do abajur. Felicidade é isso é se preparar calculando tudo ponto por ponto. Depois jogar no lixo as muletas todas. Boa essa palavra. Estruturar."
Fragmento de "As meninas", pp. 81-2.

" – O senhor disse que o Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas e Armadas está ocupando a suíte cinzenta. Por que cinzenta?
O jovem pediu licença para se sentar. Puxou a cadeira mas conservou uma prudente distância da almofada onde o Secretário pousara o pé metido no chinelo. Pigarreou:
– Bueno, escolhi as cores pensando nas pessoas – começou com certa hesitação. Animou-se: – A suíte do Delegado Americano, por exemplo, é rosa-forte, eles gostam das cores vivas. Para o de Vossa Excelência escolhi este azul-pastel, mais de uma vez vi Vossa Excelência de gravata azul... Já para a suíte norte me ocorreu o cinzento, Vossa Excelência não gosta da cor cinzenta? Me parece tão apaziguadora!
O Secretário moveu com dificuldade o pé estendido na almofada. Levantou a mão. Ficou olhando a mão:
– É a cor deles. Rattus Alexandrius
– Dos Conservadores?
– Não, dos ratos (...)"
in: "O seminário dos ratos", p. 117.