ENCONTRO MARCADO    
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ZUENIR VENTURA

1968 – o ano que não terminou

A crônica da época não lhe dedicou mais do que magras 15 linhas. Nos registros existentes, ele consta apenas como uma das inúmeras festas que marcaram a entrada daquele distante 1968. E, no entanto, para os que viveram o que seria um banal acontecimento, ele permanece como um misterioso marco cujos símbolos e significados ocultos a memória e o tempo vão-se encarregando de descobrir, ou de criar, até obter o material com que se fazem os mitos.
Não terá ocorrido com o "Réveillon da casa da Helô" o que ocorreu com outros aparentemente insignificantes mas memoráveis acontecimentos? Afinal, o Último Baile da Ilha Fiscal não mereceu da imprensa, de imediato, o justo destaque que lhe reservaria a História – ou a lenda.
Ele foi dos "melhores", assegura uma das colunas sociais da época, sem porém lhe dar a correspondente importância, preferindo contemplar as razões mais fúteis: "o scotch era legítimo", dizia a colunista Léa Maria: o som "combinava carnaval com iê-iê-iê" e os trajes se apresentavam variados – "smokings, longos formais, curtos mini, roupas hippies de luxo". – Além disso, o elenco de convidados era atraente: "metade gente de cinema e teatro novo; a outra metade, grupos de jovens assessores lacerdistas.".

Inveja. Mal secreto

"Senhora Zuenir Ventura!", disse em voz alta a enfermeira e, quando me apresentei, toda a sala de espera riu. Eu sabia que ia acontecer isso, que a bruaca ia trocar o meu sexo. Para evitar o vexame, tinha corrido para junto dela, assim que apareceu com aqueles papéis na mão. Era para avisar com minha presença que quem estava ali era um homem. Não adiantou. Além de não me dar atenção, ainda repetiu: "Senhora...". "A Senhora sou eu, pô", reagi com essa frase ridícula, provocando mais risos ainda. Isso azedou o meu humor. "Parece surda, pô, tou avisando e você não ouve!", resmunguei. Ela não se abalou. "Como é que eu ia saber, senhor", e me virou as costas. Além de tudo, tinha essa mania de filme de tevê traduzido, cada vez mais difundida entre secretárias, telefonistas e enfermeiras cults – um americanismo detestável: "É a sua vez, senhor", "O que deseja, senhor?", "Obrigada, senhor". No meu tempo, ninguém falava assim, a não ser para se dirigir ao Senhor supremo.