ENCONTRO MARCADO    
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SERGIO BRITTO

"No início da carreira, o ator sabe tão pouco, que nem sabe o que não sabe. Depois ele começa a melhorar e percebe o que não sabe, mas sabe que pode chegar lá. Numa terceira fase, ele descobre que existem coisas que não vai saber nunca. É a fase da amargura, mas também da maturidade. Aí é preciso fazer alguma coisa, pois o ator não pode parar. Quem pára morre. Então ele muda de diretor, de repertório, muda a vida se for necessário."
Trecho de entrevista dada ao jornal Estado de São Paulo, em 22 de agosto de 1996

"A confusão na cabeça chegou a ser um bocado difícil. Não queria medicina, mas não sabia o que fazer no teatro. Não me achava ator, os meus mestres iniciais não tinham sensibilidade e cabeça para me pôr dentro da profissão. Eu tinha atração pelo teatro, isso sim, mas estava perdido. Quando comecei, a gente aprendia a repetir o que seu mestre mandou – e era horrível. Eu ficava inseguro e não achava graça naquele jogo tão pré-fixado. Um dia, eu já era profissional havia três anos, o José Renato resolveu fazer Uma Mulher e Três Palhaços e me encarregou de ser o Crockson, um palhaço inglês, falando com sotaque, bem louco, apaixonado pela Eva Wilma, que estava apaixonada pelo John Herbert. (...) A maquiagem do palhaço, o nariz de bola de pingue-pongue, as correrias, os tombos, as subidas e descidas em escada, representando em teatro de arena, no olho do público, foi a descoberta. Eu me resolvi, me senti ator. Eugenio Kusnet me falou da memória afetiva, de como criar os meus pontos de concentração. Aí, ninguém me segurou mais, virei ator mesmo – bom, razoável, ótimo, medíocre, com todas as variações prováveis em cada personagem, em cada momento diferente nesses 53 anos – e o ator me segura e eu acredito nele.
Só gosto de viver no Rio de Janeiro – minha cidade amada, apesar das traições com Nova Iorque, Londres, Paris, a Itália toda, mas, antes de tudo, Veneza, a mais linda do mundo – apesar da necessidade de conhecer gente diferente, como foi a Índia, o Irã, a Tailândia, a Grécia. Ver nos olhos dessa gente aquilo que Brecht dizia: "Descobrir o conhecido no desconhecido, e o desconhecido no conhecido." É um barato. É a descoberta maior da vida. No rosto enrugado de um mendigo cego, em Teerã, vejo alguma coisa especialmente perceptível – a grandeza da alma, o orgulho imbatível e a amizade que está ali, à flor da pele. É o lado conhecido possível. E, no amigo que você conhece de todo dia, um dia descobre algo inesperado, algo nunca pressentido, bom ou mau, mas algo novo, desconhecido até então. A partir dessa premissa de Brecht, a vida me tem parecido boa, sempre aventura, fantástica, experiência sem fim, apesar de, apesar de, apesar de. E vou nos meus 75 anos, feliz da vida, "apesar de você".
Trecho de depoimento publicado no Jornal do Brasil, em 10 de outubro de 1998.

Perfil

"Sergio Britto não é somente um artista atuante, vivido, experimentado, em constante estado de criação e produtividade. Ele é por excelência, uma das testemunhas mais importantes de, pelo menos, 50 anos de vida cultural brasileira, sempre ligado a todas as evoluções estéticas do nosso teatro, cinema, televisão e ensino dramático, absorvendo os novos sinais, incorporando-os à sua vivência e acalmando, em parte, a sua eterna inquietação, numa crônica de vida vocacionada, criativa e metodicamente explosiva. É um provocador absolutamente objetivo.
Que estes momentos remarcáveis da vida de um ator cheguem ao leitor com o mesmo ímpeto, entrega, talento, vocação e inocência com que Sergio Britto vem atravessando seus 50 anos de vida pública, conquistados, incansavelmente, na busca do auto-conhecimento."
Texto escrito por Fernanda Montenegro para o livro autobiográfico de Sergio Britto, Fábrica de Ilusão, Rio de Janeiro, Ed. Salamandra, 1998.