ENCONTRO MARCADO    
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NELSON PEREIRA DOS SANTOS

Em plena globalização, o Brasil ainda é um país nacionalista, como poucos no mundo. Até que ponto os intelectuais brasileiros em geral, e os integrantes do Cinema Novo, são responsáveis por isso?
Nelson Pereira dos Santos –
Creio que o principal problema do nacionalismo é que é sempre uma filosofia extremista: de extrema-direita ou de extrema-esquerda. De um lado, aquele discurso ligado as fascismo e, no extremo oposto, a idéia política de que é preciso fechar o país para que o brasileiro possa gozar de nossas riquezas. Eu acho que são duas visões completamente equivocadas. No fundo, como nos mostra Gilberto Freyre, nossas raízes históricas nunca foram predominantemente nacionalistas: se você for verificar de perto, o povo brasileiro defendeu sempre, acima de tudo, as raízes de Portugal. De fato, houve a moda do nacionalismo, mas o cinema esteve um pouco fora disso. Eu por exemplo nunca defendi a obrigatoriedade de exibição: isso era uma estratégia de exibição, eram os produtores, sedentos por filmes comerciais, para ganhar dinheiro. Nesse sentido, a função do Cinema Novo – sua preocupação maior – foi sempre a de tentar mergulhar nas origens sociais, culturais e políticas brasileiras... E isso, volto a dizer, não é ser nacionalista. Pelo contrário: é abrir, buscar o universal.

Por falar nisso, você ainda acha que o Cinema Novo foi o movimento cinematográfico mais importante do Brasil?
Nelson –
Sou um pouco "suspeito" para opinar, não é? Não sei se ele é (ou chegou a ser um dia) o mais importante movimento. Sei que teve uma importância decisiva para o processo de descolonização do cinema brasileiro, na medida em que se apropriou da linguagem cinematográfica universal e soube combiná-la com a herança cultural do país. O Cinema Novo conseguiu mexer com muitos temas essenciais para o Brasil dos anos 60: a miséria do Nordeste, a questão do cangaço... Mas ele não foi só isso: costumo dizer que o Cinema Novo foi o equivalente do que Di Cavalcanti e Portinari fizeram na pintura, Villa-Lobos na música e Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Jorge Amado na literatura.

Boa parte de sua obra, por sinal, baseia-se em adaptações literárias: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa... O cinema ainda não teria um pensamento original?
Nelson –
Minha opção por adaptar obras literárias representa, antes de mais nada, uma homenagem à literatura brasileira. Machado, com O alienista; Graciliano, com Vidas secas e Memórias do cárcere, Jorge Amado, com Jubiabá e Tenda dos Milagres... Todos eles são autores que ajudaram a formar a nossa imagem a respeito do Brasil. Então, na hora de fazer um filme sobre a seca, quem melhor do que Graciliano Ramos para dar conta desse momento histórico? Quem, como Jorge Amado, para falar de nosso misticismo e nossa miscigenação? Meu próximo trabalho, sobre Gilberto Freyre, também se deve a esse reconhecimento.

A televisão pode ser uma aliada importante do cinema brasileiro?
Nelson –
Claro! Não tenho dúvida de que a televisão e o videocassete transformaram cada casa numa pequena sala de exibição. Claro que existe uma enorme diferença. Comer em prato de porcelana, com talheres de prata, não é o mesmo que comer, por exemplo, num bandejão popular... Um bom filme autoral ou mesmo o cinema-espetáculo, como Titanic, funcionam muito melhor na sala grande, com som estéreo perfeito. Mas o que se perde em termos estéticos é compensado pela grande capacidade de divulgação, de circulação mais democrática.

Uma última pergunta, inevitável: como você está vendo a retomada do cinema brasileiro?
Nelson –
Acompanhando tudo com muito otimismo. É como eu dizia no início: as questões de distribuição precisam ser enfrentadas – e graças a Deus estão sendo! Conseguimos apagar aquela mentira de que o público, por definição, não gosta de cinema brasileiro.

Trechos retirados da revista "Veredas" do Centro Cultural Banco do Brasil, março de 1998.