ENCONTRO MARCADO    
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LUIZ CARLOS MACIEL

Nova Consciência
"(...) A velha Razão é a mãe de todos nós. Ela nos amamentou com seu leite forte e gorduroso; educou-nos para que crescêssemos à sua imagem e semelhança; adestrou-nos em seus truques, obedientes às suas Normas Invioláveis. As proteínas de seu leite explodiram em bolhas neuróticas sobre a pele da alma; a educação resultou em asfixia de nosso instinto criador e a obediência em mutilação do próprio sexo. Mas a fase edipiana passou. Nada temos mais a aprender dos conselhos maternais. Já nos disseram o que sabiam ou podiam. Naturalmente, a libertação não é fácil: a velha Razão, gordota e bochechuda, insiste em manter a rédea curta, afrouxando a tensão apenas para iludir o filho incauto com a ingênua e inútil tentativa de compreensão que é típica das mães fabricadas pelo sistema. (...)"
pág. 47

Anos 60
"(...) A grande lição que se tentou aprender, nos anos 60 foi a liberdade. Verificou-se o seguinte: o que as pessoas fazem socialmente é pura loucura, um escudo usado contra a verdadeira natureza da realidade, espontânea e incontrolável. As Instituições cristalizam essa proteção, para que ela possa ser utilizada pelas massas. Mas não possui nenhum valor substancial. Só pode haver conhecimento de verdade, clareza, quando os escudos são dispensados. Um escudo é útil, como defesa, mas também cobre a visão. (...)"
pág. 117

"(...)O gesto libertário perdeu o sentido; a busca acabou; o caminho está fechado. As instituições, velhas ou novas, mostram-se fortalecidas. Voltamos ao que havia antes dos 60, só que pior. O egocentrismo é absoluto; a liberdade desapareceu do horizonte. Não só a Igreja Católica e o Partido Comunista mas todos os grupos humanos – associações, irmandades, seitas – se comprazem em controlar seus membros, que parecem até muito felizes com isso, sem exceção. O conformismo é normal; a moda é ser careta. O indivíduo desaparece; nascem os robôs. A vitória do sistema só não é total porque sua natureza é ilusória.
As condições parecem suficientes para a primeira aterrissagem pública de uma nave-mãe. (...)"
pág. 120

A Morte Organizada
"(...) O pensamento oriental está tendo, portanto, em nossa cultura, uma função eminentemente crítica. Está nos mostrando que as coisas não são necessariamente como pensávamos que fossem, que o mundo que vemos não é necessariamente da maneira que o vemos. A prática dessas filosofias entre nós está cumprindo a tarefa necessária de demolir – principalmente nas novas gerações – a imagem ocidental do mundo, essa descrição que é doente e que, por isso, age permanentemente como uma fonte contínua de todas as espécies de doenças. Isso, que eu disse, resume talvez a minha esperança em relação ao assunto: a de que esse interesse contribua para um processo crescente de descondicionamento que é, nesse mundo condicionado de guerras, fomes e injustiça, a única porta aberta – uma porta que, aliás, sempre esteve e sempre estará aberta, a cada instante, aqui e agora."
pág. 22

in: Nova Consciência. Rio de Janeiro: ed. Eldorado, 1972.