ENCONTRO MARCADO    
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LUIZ CARLOS LACERDA

"Não conheci pessoalmente. A vi sentada, uma vez, num bar ali na antiga Montenegro, bebericando e namoriscando com alguém. Devo tê-la visto na Banda de Ipanema, aqui e ali, sem que nossos caminhos necessariamente se cruzassem. Mas não ter convivido com ela me libera ainda mais para gostar desse filme sem problemas. Refiro-me à Leila Diniz, que o Bigode, vulgo Luiz Carlos Lacerda, põe a partir desta semana nas telas de nossa memória-imaginação. (...)

Era um filme arriscadíssimo de se fazer. Bigode poderia ter quebrado a barba e a cara toda. E, no entanto, fez um filme maduro, tocante e historicamente necessário. (...)

Por que era arriscadíssimo?
Porque transformar em obra de arte a vida de alguém que se ama pode resultar num exercício confessional solitário. Pode se transformar num saudosismo que não atinge ao público. E ali no saguão do Méridien, antes da exibição, enquanto via entrar na sala de projeção parte da fauna & flora de Ipanema, Renato Sérgio, da Ele e Ela, especulava comigo: será que lá em Maceió ou Belém o público médio poderá captar a força desse mito ipanemense?

E o filme começa. E aparece Louise Cardoso esfuziante em cena seduzindo já de vez a platéia. E vai se montando um jogo instigante. Estamos diante do passado e do presente. Do real e do imaginário. Algumas pessoas que estão representadas na tela se acham fisicamente sentadas nas poltronas. O próprio diretor, o Bigode, está assistindo uma personagem fazer seu papel. Ele é ele e o outro. Atores que conhecemos concretamente representam pessoas que conhecemos concretamente. Carlos Alberto Ricelli faz Domingos de Oliveira, o primeiro marido de Leila. Antônio Fagundes faz o último, Ruy Guerra. E, no meio, Rômulo Arantes faz Toquinho, Paulo César Grande faz Nando de La Mare e Arduino Colassanti.

E o filme lá vai. Entre o passado e o presente, o real e o irreal, a tela e a platéia, lá vai ele desenrolando um pedaço não apenas de certas vidas, mas de nossa vida e da história do Brasil. E como se poderia dizer academicamente, esta obra tem vários níveis de leitura. E um deles é a história recente do Brasil. Por isto começa com uma manifestação política dos comunistas em 1946, avança pela ditadura de 1964 e a repressão de 1968, descrevendo a perplexidade de uma geração. Mas além de ser a história política é também a história de uma geração, que vem dos anos românticos da bossa-nova, das discussões estético-boêmias nos bares, experimenta a loucura utópica da era hippie e tem que amadurecer na porrada. Ali estão a pequena e a grande história. A história da repressão e da liberação, não só de Leila, a instintiva generosa, mas do próprio diretor. Neste sentido Bigode e Leila são um duplo. Ele fala através dela e deixa-a falar através dele. São figuras gêmeas, geminadas. E se ela morreu num desastre de avião, regressando de um festival na Austrália, onde se exibia um filme dela com Bigode, ela renasce agora num outro filme do mesmo diretor.
Affonso Romano de Sant'Anna, Jornal do Brasil, outubro de 1987.

"Há espaço para todos no conjunto dos novos filmes realizados no Brasil. Mesmo para uma comédia despretensiosa como For all, dirigida por Buza Ferraz e Luiz Carlos Lacerda. Que não se espere nenhum tratado sobre as conseqüências históricas da passagem dos americanos por Natal durante a Segunda Guerra. For all reúne pequenas histórias, alinhavadas por números musicais curtos, que compõem um painel deliberadamente kitsch do cotidiano potiguar. Há muito em comum entre este filme e Leila Diniz, de Luiz Carlos Lacerda. Ambos promovem a leitura idealizada do passado, numa estranha mistura de admiração e sátira aos símbolos da cultura de massa. É verdade que a sucessão de histórias paralelas poderia render uma minissérie de televisão. Alguns conflitos, como a morte do piloto americano, são resolvidos com uma rapidez que fere o ritmo da narrativa. Mas também é verdade que é preciso muito mau humor para não se divertir com os delírios gays do faxineiro Sandoval (Luiz Carlos Tourinho). Outro ponto positivo de For all é a trilha sonora de David Tygel, e que se enquadra perfeitamente ao clima das imagens. A cena em que João Marreco (Paulo Gorgulho) se declara a Iracema (Flávia Bonato) deve muito ao arranjo das cordas, o que demonstra como a nova produção brasileira tem espaço para todos, inclusive especialistas nas mais diversas áreas da produção cinematográfica."
Ricardo Cota, Jornal do Brasil, maio de 1998.