ENCONTRO MARCADO    
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LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

"Os textos do escritor e humorista gaúcho Luis Fernando Veríssimo, 49 anos, possuem a eficácia e o encanto de velhas piadas – aquelas que provocam risos mesmo quando já se conhece o final. No caso de A Mãe de Freud, seu 19º livro, uma reunião de pequenas histórias publicadas na imprensa nacional ou do Rio Grande do Sul, a eficácia do escritor é a sorte do leitor. Veríssimo abandonou nesta coletânea seus personagens mais famosos, o analista de Bagé e a velhinha de Taubaté, para centrar fogo em historietas que comentam fatos políticos (como a em que economistas brasileiros aparecem gerindo as finanças do Inferno), as mudanças nos costumes (a do menino que nunca viu uma galinha viva) e no modo de encarar o sexo (a Equipe de Pronto Atendimento, que realiza missões sexuais de emergência, usando a Unidade de Serviço Expresso, ou Unisex).

Das 44 histórias do livro, as melhores são as em que o humorista envereda francamente pelos caminhos do absurdo, imaginando, por exemplo, qual seria o Serviço Nacional de Informações (Shhh! Quem está cantando? / Nós? Do SNI? / Você está delirando. Nós não estamos nem aqui) e o da família Silva (Dominas, em proporção faraônica, / Qualquer Lista Telefônica). Ou quando descreve a guerra generalizada entre fumantes e não-fumantes. "O exército dos fumantes será debilitado no campo de batalha pelo pouco fôlego e complicações cardiovasculares", diz Veríssimo, observando que os não-fumantes serão atacados com isqueiros e pontas de cigarro acessas. A Mãe de Freud só perde o pique em dois textos, o que fala do suicídio do escritor mineiro Pedro Nava e o que comenta a situação dos desaparecidos políticos na Argentina. Em ambos, o que se busca antes é o efeito patético, e não o riso. Eles parecem um tanto deslocados num livro em que o humor, felizmente, é o objetivo principal. Quando Veríssimo mira o riso, ele acerta sempre no centro do alvo."
Mário Sérgio Conti

"Todo mundo já sabe o que esperar quando abre um livro de Luis Fernando Veríssimo. E isso não exclui as surpresas. A inteligência e a leveza com que LFV descreve suas impressões são como o sabor da comida preferida: ninguém se cansa de repetir o prato ao longo dos anos. Graças à imaginação e à produção do cronista, o banquete se amplia. Agora, as 347 "crônicas datadas" de A Versão dos Afogados, coletânea lançada pela L&PM Editores, vieram se somar ao cardápio.

Grande parte dos textos é dedicada à política. É pau no Éfe Agá. Mas é claro que um gourmet como Veríssimo não serve aquelas gororobas que só candidato em campanha é capaz de engolir sem ter um faniquito. As incongruências do poder planaltino são tratadas com o mesmo estilo dedicado às sátiras do cotidiano do homem comum. A vida pública, ao menos na escrita de LFV, tem o mesmo peso da vida privada. As duas são tratadas justamente: como comédias. (No parênteses, cabe a ressalva de que o autor sabe muito bem qual a gravidade cabível a cada uma.)
O que está garantido no livro é a diversão acompanhada de reflexão. De quebra, Veríssimo compartilha porções de seu conhecimento, como acepipes dignos de serem deglutidos por mentes famintas. São raros os anfitriões que podem pôr à mesa considerações sobre Gilles de Rai, Joana D'Arc e Shakespeare para sustentar um ponto de vista sobre a tese do detalhe e sua possível influência sobre a história do Brasil. Dito assim, parece non sense, mas leiam e saboreiem.

O bom gourmet, como o bom jornalista, tem que ter faro. O olfato de LFV, por exemplo, lhe permite sentir cheiro de Eau Minerale de Carbonnieux (apelido solerte de um vinho degustado por um muçulmano na Turquia) na social-democracia efeagasiana. Para quem discorda, além da boa sacada, vale ao menos a constatação de que "no fundo, o artifício do sultão só mostrava como vivemos sob o poder das palavras".

Veríssimo está aí para brincadeiras. Não quer dizer que ele não leve nada a sério. Há coisas sérias demais para serem abordadas com densa seriedade: haveria o perigo de desencadear uma voltagem fatal. Então, por que não tratá-las com o cuidado que merecem e pitadas de ironia – o melhor condimento do espírito? A risada (mesmo contida, escapando por um fio pelo canto da boca) é, sim senhores, o melhor remédio para a digestão."
Ricardo Carle, Revista Zero Hora, 1997.