ENCONTRO MARCADO    
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LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O Analista de Bagé

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
– Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
– O senhor quer que eu deite logo no divã?
– Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
– Certo, certo. Eu...
– Aceita um mate?
– Um que? Ah, não. Obrigado.
– Pos desembucha.
– Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
– Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
– Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
– Outro...
– Outro?
– Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
– E o senhor acha...
– Eu acho uma poca vergonha.
– Mas...
– Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!


Trinta Anos

Encontraram-se, trinta anos depois, numa festa. Ela sorriu e disse: "Como vai?"
– Vocês já se conhecem? – perguntou a dona da casa.
Ele não disse: "Nos conhecemos. No sentido bíblico, inclusive. Foi o amor da minha vida. Quase me matei por ela. Sou capaz de morrer agora. Ah, vida, vida."
Disse:
– Já.
– Faz horas, né? – disse ela.
Sentou-se ao lado dela. Estava emocionado. Mal conseguia dizer:
– Trinta anos...
– Xiii! Nem fala. Estou me sentindo uma velha.
E acrescentou:
– Caquética.
Curioso. Ela engordara, claro. Tinha rugas. Mas o que realmente mudara fora a sua voz. Ou será que ela sempre tivera aquela voz estridente? Impossível. Ele se lembrava dela. Tudo. O amor da sua vida. Ela agora lhe cutucava o braço.
– Tu tá um broto, hein?
– Que fim você levou? Quer dizer...
– Nem me fala, meu filho. Sabe que eu já sou avó?
– Não!
Ele não conseguira esconder o horror na sua voz. Mas ela tomou como um elogio. Gritou "Haroldo!", chamando o marido, que veio sorrindo. Ela apresentou: "Este aqui é um velho amigo..."