ENCONTRO MARCADO    
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JORGE AMADO

Poesia, documento e história

"(...) No trabalho do povo como criador (...) nenhum escritor se apresenta de maneira mais característica do que o sr. Jorge Amado. Os seus livros penetram na poesia do povo, estilizam-na, transformam-na em criação própria, trazendo o proletário e o trabalhador rural, o negro e o branco, para a sua experiência artística e humana, pois que ele quis e soube viver a deles. Se encararmos em conjunto a sua obra, veremos que ela se desdobra segundo uma dialética da poesia e do documento, este tentando levar o autor para o romance social, o romance proletário que ele quis fazer entre nós, a primeira arrastando-o para um tratamento por assim dizer intemporal dos homens e das coisas. (...) O sr. Jorge Amado é um autor entre a prosa e a poesia. Se a sua obra é um movimento dialético entre o documento e a poesia, sua forma é uma confluência desta e da prosa. É um lugar em que se coloca, a igual distância de ambas, armado com a realidade de uma e o mistério da outra.Um pouco como os botequins de cais, motivo tão querido seu. Através de sua obra, eles aparecem, lugares que não são bem mar nem terra, ponto morto em que se encontram os habitantes dos dois mundos – os homens da terra que descem dos morros e os homens do mar que saem dos saveiros. (...)"
Antonio Cándido. In Brigada ligeira e outros escritos. São Paulo: Uneso, 1992, pp. 45-60.

O romance de Jorge Amado

"(...) Os escritores atuais foram buscar o subúrbio, a fábrica, o engenho, a prisão da roça, o colégio do professor cambembe. Para isso resignaram-se a abandonar o asfalto e o café, viram de perto muita porcaria, tiveram a coragem de falar errado, como toda a gente, sem dicionário sem retórica. Ouviram gritos, pragas, palavrões, e meteram tudo nos livros que escreveram. Podiam ter mudado os gritos em suspiros, as pragas em orações. Podiam, mas acharam melhor pôr os pontos nos ii. (...) Suor poderia nos fazer supor: é a miséria, a miséria completa, nojenta, esmolambada, sem nenhuma espécie de amparo. Todos os habitantes do prédio vivem na indigência ou aproximam-se dela. (...) O livro do sr. Jorge Amado não é propriamente um romance, pelo menos romance como os que estamos habituados a ler. É uma série de pequenos quadros tendentes a mostrar o ódio que os ricos inspiram aos moradores da hospedaria. Essas criaturas passam rapidamente, mas vinte delas ficam gravadas na memória do leitor. Discutem, fuxicam, brigam, fazem confidências e dão 'rendez-vous' no corrimão perigoso da escada. (...) O que mais ressalta no livro são os caracteres individuais. Certas figuras estão admiravelmente lançadas, mas quando entram na multidão, tornam-se inexpressivas. O que sentimos é a vida de cada um; desgraças miúdas, vícios, doenças, manias. (...)"
Graciliano Ramos. In Linhas tortas. Rio de Janeiro: Record, 1992, pp. 92-6.

De Cacau a Gabriela: um percurso pastoral

"(...) A característica de base da literatura pastoral é, como se sabe, a oposição entre cidade e campo. Por ela se exprime, as mais das vezes, uma idealização da simplicidade da vida campestre sob o ponto de vista do complicado e insatisfeito homem das cidades. (...) Ao fim desta análise comparativa de Cacau e Gabriela, que buscou ressaltar tanto o que aproxima quanto o que distancia um do outro, é lícito perguntar qual a vantagem, em relação aos métodos mais tradicionais de abordagem de que já fora obje-to, desentranhar deles um nexo comum de pastoralidade.
Desde logo se diga que a abordagem aqui intentada de modo algum pretende menoscabar ou invalidar as outras; quer antes somar-se a elas para lhes ampliar o leque hermenêutico. E se de vantagem se pode falar no caso, seria talvez a de realçar uma dinâmica interna, especificamente literária, da arte de ficção de Jorge Amado, em contraposição à ênfase em fatores externos, de ordem sócio-política ou circunstan-cial, comumente invocados para explicar as singularidades de sua trajetória, sobretudo a passagem, cujo divisor de águas é exatamente Gabriela, cravo e canela, de um engajamento declarado para o que, se não chega a configurar-se como desengajamento (não o pode ser qualquer das formas de populismo), tampouco implica comprometimento com um programa ideológico. Conforme se viu no curso da análise, a passagem, ainda que condicionada por fatores externos, se fez em termos de uma lei interna, o princípio pastoral, cujas atualizações foram acoroçoadas num ou noutro sentido por eles. (...)"
José Paulo Paes. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1991.