ENCONTRO MARCADO    
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JORGE AMADO

Noite de Gabriela

Recordando o jantar, Nacib estremeceu. Até tiro podia ter saído, foi uma sorte haver terminado em paz. Aliás, era apenas o começo, o próprio Capitão dissera. Mundinho tinha dinheiro, prestígio no Rio, amigos no governo federal, não era um "porcaria qualquer" como o dr. Honorato, médico idoso e alquebrado, chefe da oposição a dever favores a Ramiro, a pedir-lhe emprego para os filhos. Mundinho ia arrastar muita gente, dividir os fazendeiros donos de votos, fazer misérias. Se conseguisse, como prometia, trazer engenheiros e dragas para desentulhar a barra... Podia tomar conta de Ilhéus, botar os Bastos no ostracismo. Também o velho estava no fim, Alfredo só existia na Câmara por ser filho, bom médico de meninos e nada mais. Quanto a Tonico... aquele não nascera para política, para mandar e desmandar, fazer e desfazer. A não ser quando se tratava de mulheres. Nem aparecera no cabaré naquela noite. Certamente para não enfrentar as discussões em torno do artigo, não era homem de brigas. Nacib balançou a cabeça. Amigo de uns e de outros, do Capitão e de Tonico, de Amâncio Leal e do Doutor, com eles bebia, jogava, conversava, ia a casa de mulheres. Deles vinha-lhe o dinheiro que ganhava. E agora se encontravam divididos, cada um para seu lado. Só numa coisa estavam todos de acordo: em matar mulher adúltera, nem mesmo o Capitão defendia Sinhazinha. Nem mesmo seu primo, em cuja casa o corpo fora encomendado para o cemitério. Que diabo viera fazer ali a filha do coronel MeIk Tavares, aquela por quem Josué suspirava apaixonado, uma de rosto formoso, calada, os olhos inquietos como se conduzisse um segredo, um mistério qualquer? Uma vez João Fulgêncio dissera ao vê-la com outras colegas, comprando chocolate no bar:

– Essa moça é diferente das outras, tem caráter.

Por que diferente, que queria dizer João Fulgêncio, homem tão ilustrado, com aquela coisa de "caráter"? A verdade é que ela aparecera no velório, levando flores. O pai visitara Jesuíno, "levara-lhe o seu abraço", como ele mesmo dissera a Nacib no "mercado dos escravos". A filha, moça solteira e estudante, à espera de noivo, que diabo fora fazer junto ao caixão de Sinhazinha? Tudo dividido, o pai de um lado, a filha de outro. Esse mundo é complicado, entenda-o quem quiser, estava acima de suas forças, não passava de dono de bar, por que pensar em tudo isso? Tinha era de ganhar dinheiro para um dia comprar roça de cacau. Se Deus ajudasse, haveria de comprar. Talvez então pudesse olhar o rosto de Malvina, tentar decifrar o seu enigma. Ou, pelo menos, botar casa para rapariga igual a Glória.

Estava com sede, foi beber água na moringa da cozinha. Viu o pacote, com o vestido e os chinelos, trazidos da loja do tio. Ficou indeciso. O melhor era entregar no outro dia. Ou botar na porta do quartinho dos fundos para a empregada encontrar quando acordasse. Como se fosse Natal... Sorriu, tomou do embrulho. Na cozinha engoliu a água em grandes goles, bebera muito naquele dia, durante o jantar, ajudando a servir.

A lua, no alto dos céus, iluminava o quintal de mamoeiros e goiabeiras. A porta do quarto da empregada estava aberta. Talvez por causa do calor. No tempo de Filomena era trancada a chave, a velha tinha medo de ladrões, sua riqueza eram os quadros de santos. O luar entrava quarto adentro. Nacib aproximou-se, deixaria o pacote nos pés da cama, ela levaria um susto pela manhã. E, talvez, na próxima noite...

Os olhos perscrutaram a escuridão. A réstia de luar subia pela cama, iluminava um pedaço de perna. Nacib firmou a vista, já excitado. Esperara dormir essa noite nos braços de Risoleta, nessa certeza fora ao cabaré, antegozando a sabedoria dela, de prostituta de cidade grande. Ficara-lhe o desejo irritado. Agora via o corpo moreno de Gabriela, a perna saindo da cama. Mais do que via, adivinhava-o sob a coberta remendada, mal cobrindo a combinação rasgada, o ventre e os seios. Um seio saltava pela metade, Nacib procurava enxergar. E aquele perfume de cravo, de tontear.
Gabriela agitou-se no sono, o árabe transpusera a porta. Estava com a mão estendida, sem coragem de tocar o corpo dormido. Por que apressar-se? Se ela gritasse, se fizesse um escândalo, fosse embora? Ficaria sem cozinheira, outra igual a ela jamais encontraria. O melhor era deixar o pacote na beira da cama. No outro dia, demoraria mais em casa, ganhando sua confiança pouco a pouco terminaria por conquistá-la.

Sua mão quase tremia pousando o embrulho. Gabriela sobressaltou-se, abriu os olhos, ia falar mas viu Nacib de pé, a fitá-la. Com a mão, instintivamente, procurou a coberta mas tudo que conseguiu – por acanhamento ou por malícia? – foi fazê-la escorregar da cama. Levantou-se a meio, ficou sentada, sorria tímida. Não buscava esconder o seio agora visível ao luar.

Vim lhe trazer um presente, – gaguejou Nacib.

– Ia botar em sua cama. Cheguei agorinha...

Ela sorria, era de medo ou era para encorajar? Tudo podia ser, ela parecia uma criança, as coxas e os seios à mostra como se não visse mal naquilo, como se nada soubesse daquelas coisas, fosse toda inocência. Tirou o embrulho da mão dele:

– Obrigada, moço, Deus lhe pague.

Desatou o nó, Nacib a percorria com os olhos, ela estendeu sorrindo o vestido sobre o corpo, acariciou-o com a mão:

– Bonito...

Espiou os chinelos baratos, Nacib arfava.

– O moço é tão bom...

O desejo subia no peito de Nacib, apertava-lhe a garganta. Seus olhos se escureciam, o perfume de cravo o tonteava, ela tomava do vestido para melhor o ver, sua nudez cândida ressurgia.

– Bonito... Fiquei acordada, esperando pro moço me dizer a comida de amanhã. Ficou tarde, vim deitar...

– Tive muito trabalho – as palavras saíam-lhe a custo.

– Coitadinho... Não tá cansado?

Dobrava o vestido, colocava os chinelos no chão.

– Me dê, penduro no prego.

Sua mão tocou na mão de Gabriela, ela riu:

– Mão mais fria...

Ele não pôde mais, segurou-lhe o braço, a outra mão procurou o seio crescendo ao luar. Ela o puxou para si:

– Moço bonito...

O perfume de cravo enchia o quarto, um calor vinha do corpo de Gabriela, envolveu Nacib, queimava-lhe a pele, o luar morria na cama. Num sussurro entre beijos, a voz de Gabriela agonizava:

– Moço bonito.

Gabriela, cravo e canela: Crônica de uma cidade do interior. 33ª ed., São Paulo: Martins, 1968.