ENCONTRO MARCADO    
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JORGE AMADO

Cadernos de Literatura Brasileira – O sr. começou a se dedicar à literatura no início da adolescência. A que o sr. atribuiria esta opção precoce?
Jorge Amado –
Essa é uma pergunta difícil de responder, porque justamente na juventude a gente tem idéia de realizar muitas coisas que depois não consegue. Ainda na adolescência, como você disse, eu comecei a ser tomado por uma vontade muito grande de ser escritor e aí, naturalmente, procurei trabalhar nessa direção.

Cadernos – O sr. acredita que ainda hoje a literatura tenha a mesma eficácia da época em que o sr. a utilizou para formar uma certa visão do povo brasileiro?
Jorge Amado –
Acredito. A importância e o peso da literatura nestas questões ainda permanecem e nós devemos utilizá-la para isso.

Cadernos – Sua obra ficcional é predominantemente voltada para o romance. Até mesmo contos o sr. escreveu pouco e fez apenas uma peça de teatro. Como o sr. vê estes gêneros?
Jorge Amado –
A gente pensa que estas técnicas de escrever são parecidas. Não são. No caso do romance e do conto, eu digo que são técnicas opostas. Você, para escrever um romance, precisa ter o domínio de um espaço e de um tempo muito mais amplos. No conto acontece o contrário. Para mim é muito mais fácil dominar as grandes extensões do que fazer sínteses, que é o que o conto exige. É por isso que eu me aventurei pouco em outros gêneros. Eu sou mesmo um romancista.

Cadernos – Como é o seu processo de criação? Como nasce um romance de Jorge Amado? O sr., por exemplo, toma notas do que escreverá depois? É metódico no sentido de, pelo menos enquanto está produzindo um livro, escrever todos os dias, por um espaço determinado de horas?
Jorge Amado –
Eu nunca tomo notas. Como escrevo sobre aquilo que vivi, aquilo que conheço, uso muito minha memória. Quanto a métodos, sim, eu tento escrever todos os dias quando estou trabalhando num romance. Mas já aconteceu de interromper um livro para escrever outro.

José Paulo Paes – A crítica aponta com freqüência dois momentos capitais de mudança ou de correção (!) na sua obra de romancista. Um deles é Terras sem fim; outro, Gabriela, cravo e canela. Você concorda com isso? Na sua experiência criativa, o que representaram para você esses dois momentos? Como você os caracterizaria?
Jorge Amado –
Eu acho que são dois momentos de afirmação e não de mudança de rota. A rota continua a mesma. Eu ando na mesma direção, no mesmo sentido.

Cadernos – E quanto à importância que os personagens femininos adquirem a partir de Gabriela, o que o sr. diria?
Jorge Amado –
Existe essa idéia de que eu só escrevi Gabriela porque tinha saído do Partido Comunista. Não é verdade. Eu teria escrito este romance de qualquer maneira porque, como eu disse, na minha opinião Gabriela representa uma continuidade dentro da minha obra.

Lilia Moritz Schwarcz – Sincretismo religioso é um tema importante em sua vida e em seus romances. Como é que o "criador Jorge Amado" dialoga com a "criatura", com o "obá de Xangô Jorge Amado"? Além disso, como é possível pensar em sincretismo em meio a um mundo cada vez mais marcado pela afirmação das diferenças e etnias?
Jorge Amado –
O sincretismo é próprio do Brasil. Aqui existe essa mistura, de modo que não podemos deixar de pensar nela para pensarmos nessa afirmação de diferenças.

Zélia Gattai – Quanto à primeira parte da pergunta, me faz lembrar daquela famosa passagem de Tenda dos milagres, quando Pedro Archanjo explica como ele, sendo materialista, pode dar atenção ao candomblé. Ele diz simplesmente: "Meu materialismo não me limita".

Cadernos – O sr. crê, então, no transcendente?
Jorge Amado –
Não, eu não tenho crença nenhuma. Será uma felicidade ou uma infelicidade? Eu não sei lhe dizer. Mas a verdade é que não creio.

Cadernos – Convivendo tão de perto com a literatura de cordel e compositores de porte do país, por que o sr. não se dedicou mais à MPB?
Jorge Amado –
Porque eu tenho uma enorme dificuldade para a música, só por isso.

Dias Gomes – Como é chegar aos 84 anos com essa exigência dos editores e do público de continuar produzindo grandes obras, sem parar? Ou essa é uma auto-exigência? Parar de escrever, para o escritor, é passar à categoria dos mortos-vivos?
Jorge Amado –
O problema é que a gente não escreve exatamente porque quer.

Trecho da entrevista concedida para o Cadernos de Literatura Brasileira, nº3