ENCONTRO MARCADO    
VÍDEO    PERFIL    BIO    OBRA    EXCERTO    CRÍTICA 
JOÃO ANTONIO

O escritor João Antônio
José J. Veiga

"(...) Pegue-se um jornal alemão de um, dois anos atrás – o B.Z. de Berlim, ou o Die Welt, de Bonn – e nele se encontrarão, nas páginas dedicadas a livros e autores, elogios que João Antônio raramente tem recebido da imprensa brasileira. Matéria de duas colunas no Welt, assinada G.A., diz que "João Antônio, com seus livros agora traduzidos para o alemão, nos mostra que o Brasil, apesar de tudo, tem hoje uma literatura original e muito vigorosa.

Uma qualidade marcante da literatura de João Antônio é a linguagem que foge completamente da escrita "literária", sobretudo na fala dos personagens. O leitor sente logo que são pessoas falando como sabem e como falam entre elas, e não bonecos dizendo coisas que o autor lhes soprou. E aqui é preciso acender uma luz de advertência, porque é onde entra o talento do escritor. Captar falas de gente do povo é muito fácil, basta ligar um gravador. Mas em seus contos João Antônio não está fazendo reportagem, está criando literatura. O que ele capta nas ruas e na vida passa pelo seu filtro de criador. Por isso seus personagens e as falas deles adquirem uma força e uma verdade que nos convencem e nos afetam e ganham a nossa simpatia ou a nossa aversão – como fazem as pessoas com que topamos na vida, do bacanaço ao lambão de caçarola e ao leão-de-chácara."
in "Guardador". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.

Pra lá de Bagdá
Antônio Hohlfeldt

"(...) A marginalidade das personagens de João Antônio raramente se reduz a um único elemento. À marginalidade sócio-econômica, em geral, somam-se as condições infantil, feminina, racial, um aleijume qualquer -na maior parte das vezes advindas da própria condição social, da subnutrição ou de algum enfrentamento de conseqüências mais sérias – mas que amplia a necessidade de a personagem auto-afirmar-se em permanente discursividade que encobre suas incapacidades. E daí a oralidade essencial do conto de João Antônio, que é não apenas técnica literária visando dinamizar o texto como reflexo psicológico da personagem.

Sem lugar fixo, sem tempo fixo, a personagem de João Antônio aproxima-se da tradição picaresca: ela precisa estar em permanente movimento para sobreviver, seja em fuga, seja à cata dos otários. Assim, é um movimento espacial de que Malagueta, Perus e Bacanaço nos dá o melhor exemplo, mas é também um movimento temporal o que elas realizam, nutrindo-se, nos piores momentos, das memórias dos bons tempos. A sobrevivência, por outro lado, exige-lhes tensão e atenção constantes. As figuras de João Antônio, se gostam de falar, precisam também ouvir: seu aprendizado é permanente, porque significa a condição sem a qual não sobrevivem. Então, configura-se igualmente a tradição de um "romance de formação", tão bem anotada por Cassiano Nunes, o que diversifica os aspectos sob os quais podemos ler a ficção de João Antonio. (...) Também ele, à semelhança de suas personagens, está fora do esquema, vê-se obrigado, permanentemente, a uma luta corpo-a-corpo com a vida. Porque também ele, à semelhança de suas personagens, vive à margem, vive prá lá de Bagdá. Ele, como suas personagens, são heróis e vítimas deste capitalismo selvagem que entre nós medra."
in "Os Melhores Contos – João Antônio". São Paulo: Global, 1997.