ENCONTRO MARCADO    
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JOÃO ANTONIO

Malagueta, Perus e Bacanaço

"(...) O dono do bar arrumava pequenas coisas, corrigia o alinhamento das garrafas. Embromava.

Foi quando surgiu no salão um tipo miúdo, lépido, baixinho, vestido à malandra, terno preto, gravata estreita, sapatos pequenos de bicos quadra-dinhos. Desses sujeitos que fazem suas coisas muito à pressa, passos curtos, rápidos, jeitosos, com o bigo-dinho aparado que costumam pendurar na cara.

Bacanaço deu-lhe de olhos, fez um estudo.

– Esse tostãozinho de gente aí é algum otário oferecido.
O homem cumprimentou o dono do bar, sorriu, bebeu lá o seu copo, veio se encostando à mesa. Num minuto batia papo com Bacanaço.

– Olá, parceirinho, está a jogo ou está a passeio?

Perus sofria. O homem era Robertinho, dos maiores tacos de Pinheiros, um embocador, fino dissimulador de jogo. Conhecera-o no Aimoré, muquinfo da Rua Teodoro Sampaio e haviam se dado bem. Camaradas.

– Depende de um entendimento, meu.

Camaradas. Em pensamento, Perus pedia a Bacanaço, não marcasse jogo. Robertinho, um bárbaro, piranha manhosa e o pior – escondia jogo. Se quisesse, bolava um plano, passava duas-três horas perdendo, malandro de capital, que era. Depois, mordia, dobrava paradas, ia à forra – largava o parceirinho falando sozinho, sem saber por que perdera. Bacanaço e Malagueta o desconheciam, aquilo era – um esbregue que o mulato ia arrumar. E a mais a mais, naquele salão, naquelas mesas, conhecidas de Robertinho como a palma de sua mão... Tacaria como um professor.

– Duas de duzentos e cinqüenta.

Diabo. Bacanaço agora propusera jogo; Malagueta, a seu mando, se bateria com Robertinho. O velho se espatifaria depressinha, perderia uma, duas, dez, vinte partidas, todas. Cairia de quatro. Robertinho jogava três vezes mais que o velho, na lógica natural do jogo. Ô estrepe! E Perus não podia evitar o encontro...

– Vamos lá, parceiro – Robertinho já desatava o paletó.

Quando o malandro deu de cara com Perus, fez não reconhecê-lo, que na velha regra da sinuca, naquela situação, ambos deviam silenciar e primeiramente esperar jogo. Assim fazem os malandros entre si; é regra. E, regra, Perus não podia avisar Bacanaço, nem Malagueta. Não devia entregar Robertinho, que o jogo era muito bom para ele. Nada poderia dizer. Se abrisse o bico, ouviria de Robertinho a palavra "cagüeta", que é o que mais dói para um malandro. E ainda arrumaria briga séria. Bacanaço ia entusiasmado, atiçando. Perus sofria. Não podia arrancar os companheiros daquele lobo e em havendo jogo, já sabia na ponta da língua a continuação negra daquela parada – Robertinho ia-lhes deixar tortos, tortinhos, sem dinheiro para um café. Nem Bacanaço, nem Malagueta, nem Perus teriam força de jogo para o seu ritmo.

– Jogo o jogo caro, meu – o homem miudinho dobrava preço. – E meu jogo não tem estia: se ganhar, não dou; se perder, não quero. Topa, parceirinho?

Jogo seu não dava consolos, nem os pedia.

Bacanaço dirigia com rompante, autorizou Malagueta, botou-o na mesa.

– O meu empregado é empregado velho. Joga. Estia não se dá e não se leva, que isto aqui é jogo de homem e não de esmoleiro. A quanto?

Quinhentos cruzeiros. Perus suspirou fundo. Ô buraco em que caíram, ô estrepe inesperado! Não havia saída, era esperar sentado, arrasado. Assistiria a Robertinho ganhar uma partida, duas, ou quarenta. Para o malandro, bom realizador, o trabalho seria o mesmo. E Perus não poderia dizer um A. Para começo, o dinheiro de Malagueta se esbagaçaria. Depois, Robertinho morderia o de Bacanaço. E depois...

Mas Robertinho era terrível e deu-lhes o açúcar. Na dissimulada, deixou-se ao gosto de Malagueta, perdeu-lhe três partidas de quinhentos, pagou-lhe, maneiro, concordando. Media-lhe o jogo, estudava.

– Você está inspirado, velho.

Bacanaço vibrava diante do parceirão arranjado. Aquele perderia muito, Malagueta se conduzia bem naquela mesa. Talvez arrecadasse quatro-cinco contos naquele jogo imperdível. Maré de sorte, maré grande. E atiçava:

– Firme, velho!

Perus conhecia a malícia e apenas olhava, esperava o rebote de Robertinho, que, certeiro, quebrando tudo, viria quando o malandro bem entendesse.

Mas Robertinho, piranha, perdeu mais duas partidas. Bacanaço bebia cerveja, fazia festas, dava estalos no ar.

– Firme, Malagueta!

Perus, descoroçoado, a seu canto, seguia os movimentos dos homens, que se dobravam na mesa para as tacadas. Esperava o rebote. O contra-ataque viria, iria doer, Malagueta tropicaria, Bacanaço murcharia como um balão furado. Previa. Uma certeza desencantada ficava nos olhos claros do menino.

– Valeum conto? Valendo?

Dobrou-se o preço. Bacanaço acedeu. Perus alerta, o golpe viria. Malagueta foi às bolas.

Gramou ali como um danado. Mas quem ganhou foi Robertinho, ainda dissimulando, pequena vantagem no marcador.

Bacanaço propôs dobrar. Fizeram dois contos por partida. Foram às bolas. Malagueta conduziu:

– A saída é sua.

Robertinho começava a mostrar os dentes de piranha. Efeitos na bola branca com puxadas. Jogava uma bola de valor, embocava-a de estalo, já preparando uma outra, que era a bola da vez.

Diante daqueles começos de tacada longa, Malagueta se apavorava, Bacanaço se punha atento, Perus mais amuado. O velho não conseguia prender aquele suspiro comprido. O jogo não estava prestando...

O outro passava giz na cabeça do taco e ia firme ao jogo atirado. Duas, três dezenas de pontos por tacada, ou alguma coisa a menos. Um atirador como poucos, aquele Robertinho. Estraçalhava. (...)"

São Paulo, Ática, 1987, pp. 70-73.