ENCONTRO MARCADO    
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JOÃO ANTONIO

"Cada época, seu escritor. Vejamos o Rio de Janeiro, importante território da ficção nacional. Para começo de conversa, o mestre insuperável, Manuel Antônio de Almeida, com seu romance único e ímpar, onde a vida do povo da então capital borbulha numa criação plena de seiva, de graça, de verdade. Depois Machado de Assis, vindo quase da senzala e ansioso de escalar os degraus sociais, retratista da burguesia em ascensão, seu crítico e seu enamorado. Em seguida, o desabusado e revoltado Lima Barreto, homem dos subúrbios, das redações mal pagas, boêmio, bom de trago, familiar do hospício, "maximalista" como gostava de se intitular, o avesso de Machado de Assis. Na década de trinta, Marques Rebelo, o pequeno-burguês por excelência, com sua prosa amena, a anotação precisa do detalhe, contando de uma gente de antes da guerra e da explosão de tudo que condicionava pensamento em ação. Temos agora João Antônio, do Rio e do Brasil, de um tempo onde a violência predomina, onde as distâncias se reduziram nas cartas geográficas e se ampliaram entre os seres humanos, quando o sexo se tornou permissivo e também os sentimentos, quando tudo se fez contestação e as ideologias, mesmo as mais aliciantes, ruíram no debate que as libertou de traves e cadeias. Um tempo assim tão conturbado exige um escritor não apenas de pulso e de determinação mas também capaz de recolher e restituir os derradeiros grãos de ternura, de estabelecer um novo humanismo. O que João Antônio vem fazendo em seus livros -daí o sucesso que alcança junto a um público ávido que cresce a cada dia.
Não por acaso Dedo-Duro é dedicado a Afonso Henriques de Lima Barreto. Existe um parentesco entre os dois narradores: sente-se, nas páginas de um e de outro, ranger-de-dentes, soluços estrangulados, desencontros, bruscas emoções e uma vida que jamais é fácil, uma vida destorcida, ganha a socos por homens e mulheres que são os de hoje, desse mundo injusto e desatinado. Vida por vezes suja, literatura que não se propõe às frases caprichadas, às palavras sonoras. João Antônio trabalha com o lixo da vida e com ele constrói beleza e poesia. Porque esse escritor soma ao talento e à experiência, o amor, a paixão pela gente que povoa seus livros admiráveis.

(Apresentação de Jorge Amado para o livro Dedo-Duro)