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JAGUAR

Sergio Magalhães Gomes Jaguaribe nasceu em 29 de fevereiro do ano bissexto de 1932, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Filho de um funcionário do Banco do Brasil, morou em Santos e Juiz de Fora até voltar definitivamente para o Rio, aos 14 anos. Esse retorno à cidade natal marcou a mudança de um garoto considerado "caxias", que chegou a ser coroinha e filho de Maria, para um adolescente inquieto e irreverente, expulso de sete colégios, numa das vezes por ter desenhado histórias pornográficas tendo os padres, donos do colégio, como personagens.

Em 1954, como havia decidido se casar, fez o concurso para o Banco do Brasil, emprego que largaria dezessete anos mais tarde para se dedicar mais à atividade de cartunista e editor. Foi aprovado e passou a ter como companheiro de seção Sergio Porto, que já trabalhava na Tribuna, mas ainda não como Stanislaw Ponte Preta. Os dois saíam geralmente às cinco horas e iam para um boteco nas proximidades do banco.

O interesse pelo cartum surgiu através da admiração pelo trabalho de Borjalo (Mauro Borja Lopes), que na época fazia uma verdadeira revolução com seus cartuns sem palavras. Por coincidência, em 1957 decide participar do concurso realizado pela revista Manchete para encontrar um substituto para o próprio Borjalo, que se transferia para O Cruzeiro. Foi um dos aprovados junto com Claudius Ceccon, de Porto Alegre. Nessa ocasião, Borjalo, alegando que Jaguaribe não era nome de cartunista, determinou que Sergio passaria a assinar Jaguar.

Depois do período na Manchete e de uma passagem pela revista Pif-Paf de Millôr Fernandes, que depois de oito edições foi fechada no governo Castelo Branco, entrou, na década de 60, para a Senhor, publicação que criou um estilo jornalístico de alta qualidade reunindo nomes como Fernando Sabino, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Glauco Rodrigues, Carlos Scliar. Na Senhor editava um suplemento de humor de oito páginas chamado O Jacaré e contava com a colaboração de Ziraldo, Fortuna, Marcos Vasconcelos e Carlos Estevão.

Um fato significativo de sua carreira foi ter sido o primeiro humorista a fazer piada com o Golpe Militar de 1964. No dia primeiro de abril desse ano publicou um cartum de um gorila sapateando sobre uma máquina de escrever. Nessa época, depois de ter trabalhado na Revista da Semana, na Tribuna da Imprensa, ilustrando a crônica de Napoleão Moniz Freire, e no Correio da Manhã, desenhando o suplemento de humor O Manequinho, Jaguar estava no jornal Última Hora, onde trabalhou durante oito anos.

No final dos anos 60, Jaguar desenhava Os Chopnics, tira de humor diária escrita por Ivan Lessa publicada ao mesmo tempo no Jornal do Brasil e O Globo. Destacavam-se como personagens o Capitão Ipanema, Robespierre, Dr. Carlinhos Bolkan, Tania da Fossa e o ratinho Sig (de Sigmund Freud), neurótico, intelectual com problemas existenciais e que se tornaria o símbolo de O Pasquim. O tablóide fundado em 1969, se transformou num marco da resistência ao regime militar. Sua tiragem inicial de 20.000 exemplares, em seis meses chegou a 100.000. A equipe de criação era formada por Jaguar, Tarso de Castro, Carlos Próspero, Sérgio Cabral e Claudius. O nome do jornal partiu do próprio Jaguar, que explica: "Eu disse que quando o jornal fosse lançado, a grande imprensa iria criticá-lo, chamando-o de pasquim. Se adotássemos esse nome, estaríamos rindo da cara de todos".

Em novembro de 1970, treze dos quinze integrantes da redação foram presos pelo regime militar e mesmo assim, para espanto de todos, O Pasquim continuou circulando, pois Millôr Fernandes e Henfil conseguiram manter a redação funcionando com a ajuda de vários colaboradores. Sergio Cabral e Jaguar não foram levados com os outros mas tiveram que se apresentar na Vila Militar e lá permaneceram por dois meses. Sobre esse episódio Jaguar comenta: "Eu acordava de manhã e pensava: o que é que eu tenho para fazer? Nada. Aí pegava Guerra e Paz e lia. Então o Paulo Francis (que também estava detido) dizia: "Lendo Guerra e Paz pela primeira vez! Que maravilha! Que inveja!" Bebida era à vontade. A gente subornava os guardas e enchia a cara de cachaça de manhã à noite. Enquanto isso lá fora o Millôr e o Henfil fazendo o jornal sozinhos, trabalhando que nem uns loucos, e eu recebendo o ordenado. A única coisa chata eram as visitas, que criavam aquele clima emocional: a mulher e os filhos todos chorando e eu puto. Estava numa boa. Inclusive bloqueei uma greve de fome. O Flávio Rangel e o Paulo Francis deliberavam o dia inteiro e decidiram fazer uma greve de fome. Eu lá lendo (...) falei: "eu estou preso, fodido e ainda vou ficar sem comer?! Aqui para vocês. E eu vou furar a greve". Eles ficaram indignados, mas eu sentia que no fundo estavam aliviadíssimos, porque eu, escroto, furei a greve de fome – e eles podiam continuar comendo. (...) Saí no dia 31 de dezembro às onze horas da noite. Peguei o táxi, direto para o reveillon do Albino Pinheiro, no Silvestre. Carregaram-me em triunfo."

A existência de O Pasquim e da imprensa alternativa da época se justificava em grande parte pelo momento de repressão que o país atravessava. Com a queda do regime militar e da censura, o interesse dos leitores pelo jornal foi diminuindo e a equipe se dispersou, mas Jaguar permaneceu como editor até o encerramento em 1991, o que, segundo o próprio Jaguar, deveria ter ocorrido dez anos antes.

Nos últimos anos de O Pasquim, também produzia o Humor em Geral, página com cartuns de onze desenhistas de destaque, patrocinada e distribuída pela FUNARTE a vinte e oito jornais do país.

Em 1988, entra para o jornal O Dia, onde fazia charges diárias. Nesse período desenhava para a revista da Shell e para a revista masculina Status.

Em 1992, foi convidado para ser editor de A Notícia, jornal do grupo de O Dia. Este jornal estava sendo reestruturado para atingir a classe média e os dirigentes não queriam deixar uma lacuna junto a seu público tradicional – povão. Jaguar aceitou o desafio, que durou até outubro de 1998, quando A Notícia teve que ser fechada.

Em 1991, foi realizada uma grande retrospectiva de sua obra no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. A exposição, organizada por Araken Tavora, foi levada também para outras capitais. Atualmente assina uma crônica semanal e continua a fazer as charges diárias para O Dia; colabora com Drinques; é editor de humor da revista Caros Amigos e assina algumas das vinhetas de humor veiculadas nos intervalos da programação da TV Globo.