ENCONTRO MARCADO    
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IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

"Depois dos quarenta anos, vi que tinha que fazer a minha parte: escrever, falar, publicar artigos. Antes eu achava que tinha que liderar uma revolução, acabar com toda a miséria do mundo. Vivia angustiado porque esse era o papel da geração que apareceu nos anos sessenta. Tinhamos de fazer a grande revolução. Minha temporada em Berlim foi um momento de pensar, porque, sozinho, olhei o Brasil à distância. De repente visualizei que eu não tinha que fazer nada daquilo. Tenho um papel de conscientização e uma responsabilidade, mas não tenho de carregar esse peso. Era uma prisão. Fiquei pensando para ver se tinha atrelado a minha literatura a uma ideologia, o que seria triste. Não se pode atrelar. Sempre evitei, nunca fiz discurso dentro dos meus livros. Mas quero olhar para ver se não escorreguei, porque nessa prisão eu não quero entrar. Durante anos a gente pregou mudança e a necessidade de democracia, no que deu? O caos econômico, os sonhos no esgoto, essa corrupção, o velho negócio de todo mundo querer levar vantagem, nenhum freio a todo tipo de negociata, conluio, concessão e troca de favor. Então a juventude patina no vazio. O cara sai da universidade, que é uma droga, fica desempregado, sem objetivo e sem nenhuma razão para lutar por um país. Talvez não tenha nenhuma razão também para escrever um livro. Para que escrever? Afinal, os que falaram de luta e de revolução não se entregaram todos? Todo mundo que liderou as Diretas-já, deu em quê? Todo mundo que foi sociólogo de esquerda, todos os exilados que estão no poder deram em quê? Então, nada é tão oco hoje quanto palavras como ideologia, moral, luta, mudança. Tenho medo. O pessoal anda vacinado contra qualquer ideologia. Mas também está se vacinando contra o sistema democrático. Acontece, no entanto, que este aí não é o sistema democrático."

Trecho de entrevista publicada no Jornal do Brasil em 5 de março de 1988 e concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto