ENCONTRO MARCADO    
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HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO

"A descoberta de Clementina de Jesus por Hermínio Bello de Carvalho teve para a MPB uma importância que corresponde, na antropologia, à do achado de um elo perdido. O choque produzido por Clementina (...) em nossos ouvidos mal acostumados pela seda e pelo veludo produzidos pelos cantores da época (...) serve para nos lembrar que a África permanece viva entre nós."
Ary Vasconcellos

O samba como arte de falar bem de brasis e brasileiros
por Mauro Dias

Já foi, ainda é ofensa, maneira de falar mal, denegrir dizer nessa terra tudo acaba em samba. Nos versos de Hermínio Bello de Carvalho (para melodia de Maurício Tapajós), entretanto, era elogio: "E acabava em samba, que é a melhor maneira de se conversar." São as palavras que encerram Mudando de conversa, de 1967, o maior sucesso da carreira de Dóris Monteiro, um dos primeiros sucessos do poeta.

Vai uma longa estrada (por ela desfila a Mangueira) entre uma afirmativa e outra. A primeira indica aquele sujeito que se queixa porque Mozart não nasceu aqui, droga. A segunda pertence a alguém que ouve Cartola e Nélson Cavaquinho como as expressões geniais de uma cultura única, de prodigiosa riqueza, linguagem própria, beleza inconfundível.

Hermínio Bello de Carvalho é dos que não têm medida para o amor pela terra, sua gente, sua música, expressão maior. E traduz a paixão em versos que são alguns dos mais belos de toda a música brasileira – entre os que homenageavam a escola de samba do coração, em 1968, parceria com o portelense Paulinho da Viola (Sei lá Mangueira) e os que elogiaram Mangueira, com música de Chico Buarque, no ano passado (Chão de Esmeraldas, samba vencedor do Prêmio Sharp como o melhor do ano).

Difícil mesmo é destacar o que seja mais bonito na obra de Hermínio. Que tal Cobras e Lagartos, com Suely Costa ("Nunca mais vai beber minhas lágrimas, não vai não/Me fazer de gato e sapato, não vai mesmo não")? Ou Mas quem Disse que Eu te Esqueço, com Dona Yvone Lara (Afivelaram meu peito/Pra eu deixar de te amar/acinzentaram minha alma/Mas não cegaram o olhar/Saudade, amor, que saudade/Que me vira pelo avesso/Que revira meu avesso")? Ou Alvorada, com Cartola e Carlos Cachaça ("Alvorada, lá no morro, que beleza/Ninguém chora, não há tristeza")? Ou a maravilha com Paulinho da Viola que, no ano passado, ganhou também o prêmio de melhor samba, Timoneiro ("Não sou eu quem me navega/Quem me navega é o mar")? Ou, ainda, Folhas no ar, com Élton Medeiros ("Ter a mesma paz de antigamente/Sair cantando por cantar/Qualquer canção por qualquer luar")?

Responda quem for capaz de escolher o mais bonito do mais bonito. A obra de Hermínio é perfeita. Seus parceiros são os melhores compositores – Pixinguinha, João Pernambuco, Paulinho, Suely, Elton Medeiros, João de Aquino, Baden Powell, Martinho da Vila: o poeta os completa e traduz para nós.
in: O Estado de São Paulo. São Paulo, 23/05/1998.