ENCONTRO MARCADO    
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HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO

Mudança de conversa
Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Tapajós

Mudando de conversa onde foi que ficou
Aquela velha amizade
Aquele papo furado, todo o fim de noite, num bar do Leblon
Meu Deus do céu, que tempo bom
Tanto chope gelado
Confissões à beça, meu Deus quem diria
Que isso ia se acabar
E acabava em samba
Que é a melhor maneira de se conversar.

Sete Chaves

Dá-se a casa, mas a chave
fica por dentro da gente
trancando com certa raiva
as coisas que lá ficaram.
Dá-se a casa, e a mobília
gruda em nossa memória: –
e vem um sabor de lenha
e da carne, que ela assava;
e um certo gosto de louça
e de talher com azinhavre
e monograma bordado
no guardanapo já roto.

Dá-se a casa, e samambaias
choronas são hoje penduricalhos
nos olhos de quem a lembra;
(Era a casa um coração
de quartos desajeitados;
mas se cantava, e as pessoas
não te pediam silêncio;
se chorava, e as pessoas
acudiam com seus lenços).

E há quem passe na casa
e nomeie o seu ex-dono:
uma pessoa de hábitos
estranhos e movediços
que se abrigava na chuva
e conversava com deus
e replanta gerânios
onde nem jardim havia
e vinha morto de fome
debruçar-se na paisagem
e lambuzava de nuvens
os dedos misteriosos
e lambiscava adoidado
as fagulhas das estrelas
que catava cabisbaixo
pelo chão onde pisava;
e acariciava os bois
que pelo telhado pastavam
e entumescia as guirlandas
das noivas despetaladas.

Dá-se a chave, mas a casa
se tranca dentro da gente.

Poema retirado do livro "Bolha de luz". Ed. do autor, 1985.