ENCONTRO MARCADO    
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FERNANDO SABINO

"Quando eu tinha dez, 11 anos, descobri que era dotado de uma irresistível vocação para mentiroso. Eu assistia a um filme, lia um livro, ouvia uma história e, quando contava para um amigo, modificava as passagens menos interessantes, inventando novos lances e fazendo com que a história fosse como eu achava que devia ser. Daí para escritor não foi senão um passo, porque o escritor é uma espécie de mentiroso, não é?

Quando eu digo que o escritor é um mentiroso, evidentemente estou querendo dizer que ele realiza a sua obra através da imaginação. O escritor é um deficitário, que está aquém da realidade: ele tem de compensar a diferença entre a sua realidade interior e a realidade que o cerca, imaginando coisas, recriando a realidade, para estabelecer o equilíbrio. (...)

O escritor é um homem sozinho dentro de um quarto, diante do papel em branco e às voltas com os seus demônios, que ele conjura, que ele tenta exorcizar: o demônio da solidão, o da busca, da procura de alguma coisa que não sabe qual seja, como quem tenta recuperar uma experiência sonhada, ou vivida numa vida anterior. Ele está começando pela primeira vez, tentando abrir um caminho procurando no escuro. É um ato solitário e não se transforma em vício solitário porque é um ato de criação. A criação literária não se compara a um parto, como se costuma dizer. Pelo menos nas melhores famílias. Mas como, se ele está sozinho? É que, ao conseguir escrever, conseguir se comunicar, não se sente mais sozinho, mas fabulosamente reintegrado à comunidade, à humanidade inteira, comungando com os seus semelhantes e é este o seu orgasmo: escrever é um ato de amor".

Fernando Sabino – depoimento cedido pela editora Record.