ENCONTRO MARCADO    
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HERMANO VIANNA

"(...) Apesar de hoje o circuito funk carioca ser uma manifestação cultural predominantemente suburbana, os primeiros bailes foram realizados na Zona Sul, no Canecão, aos domingos, no começo dos anos 70. A festa era organizada pelo discotecário Ademir Lemos, que até então só trabalhava em boates, e pelo animador e locutor de rádio Big Boy, duas figuras consideradas lendárias pelos funkeiros. Big Boy produzia e apresentava um programa diário (menos aos domingos) na Rádio Mundial, estação que sempre tentou atingir um público "jovem", no horário radiofônico mais popular da época. Os Bailes da Pesada, como eram chamadas essas festas domingueiras no Canecão, atraíam cerca de 5 mil dançarinos de todos os bairros cariocas, tanto da Zona Sul quanto da Zona Norte. A programação musical também tendia ao ecletismo: Ademir tocava rock, pop, mas não escondia sua preferência pelo soul de artistas como James Brown, Wilson Pickett e Kool and The Gang.

Ademir comenta o final do baile do Canecão:
As coisas estavam indo muito bem por lá. Os resultados financeiros estavam correspondendo à expectativa. Porém, começou a haver falta de liberdade do pessoal que freqüentava. Os diretores começaram a pichar tudo, a pôr restrição em tudo. Mas nós íamos levando até que pintou a idéia da direção do Canecão de fazer um show com o Roberto Carlos. Era a oportunidade deles para intelectualizar a casa, e eles não iam perdê-la, por isso fomos convidados pela direção a acabar com o baile.

Intelectualizado ou não, o Canecão passou a ser considerado o palco nobre da MPB. O Baile da Pesada foi transferido para os clubes do subúrbio, cada fim de semana em um bairro diferente. Informantes que freqüentavam esses bailes contam que uma legião fiel de dançarinos ia a todos os lugares, do Ginásio do América ao Cascadura Tênis Clube. Big Boy, que tinha se separado de Ademir, mas contratava outras pessoas para cuidar dos toca-discos, anunciava seus bailes no programa da Mundial, cada vez mais influente. Os Bailes da Pesada eram também realizados em clubes de outras cidades, chegando até a Brasília em 74.

Alguns dos seguidores do Baile da Pesada tomaram a iniciativa de montar suas próprias equipes de som para animar pequenas festas. Não se sabe qual foi a primeira equipe. As opiniões a esse respeito divergem muito, cada informante querendo dizer que foi o primeiro. As equipes tinham nomes como Revolução da Mente (inspirado no disco Revolution of The Mind, de James Brown), Uma Mente numa Boa, Atabaque, Black Power, Soul Grand Prix.
As explicações para a mudança do ecletismo inicial dos Bailes da Pesada resultando na supremacia do soul não são muito elaboradas. Todos os informantes acabam dizendo que o soul é uma música mais marcada, portanto melhor para dançar. O discotecário Maks Peu, hoje na Soul Grand Prix, mas no início dos anos 70 um dos fundadores da equipe Revolução da Mente, além de ter sido assíduo freqüentador dos Bailes da Pesada, diz que "o público que foi aderindo aos bailes era público que dançava, tinha coreografia de dança, então até o Big Boy foi sendo obrigado a botar aquelas músicas que mais marcavam". Messiê Limá, um nome antigo no comando dos toca-discos das boates cariocas, mas que nos anos 70 "aderiu" aos bailes fazendo apresentações especiais nos subúrbios, sintetiza a opinião da maioria: "Música significa ritmo. Música sem ritmo pra mim não existe. Botou balanço, dançou, colou, o couro come."

Mas os discos "de balanço" eram artigos extremamente raros. Até a informação sobre os últimos lançamentos era difícil de conseguir, tanto que os discotecários cariocas continuavam a chamar aquela música de soul, quando funk era a palavra usual nos Estados Unidos. Quem conseguia um bom disco rasgava o rótulo para torná-lo um artigo exclusivo de determinada equipe. Essa é uma prática comum entre discotecários de países periféricos aos centros de produção musical. Uma equipe só trocava o nome de uma música de sucesso pela informação de outro nome ou até mesmo por discos. Existiam poucas lojas que importavam soul: a Billboard, na Rua Barata Ribeiro, Copacabana, era a principal delas. A oferta era sempre escassa, principalmente porque o número de equipes foi aumentando. Aeromoças e amigos que viajavam eram acionados para trazer os novos sucessos. Foi nessa época que apareceu aquilo que hoje é conhecido como "transação de discos", a troca ou venda entre equipes e discotecários. Maks Peu conta como "transava" seus discos com Samuel, o Mister Sam, hoje também discotecário da Soul Grand Prix.
O Samuel dizia: "Aí Maks Peu, eu trouxe o disco, tá aqui." Aí eu pegava o compacto. "É, é Jackie Lee, o nome está dizendo, mas como é que é a música, Samuel?" Eu não tinha toca-disco em casa naquela época. Aí ele dizia: "A música é o seguinte, cara, presta atenção na batida pra tu não perder o ritmo... pá-ra-ta-ta-tum." Aí eu começava a dançar. "Que música, Samuel! Vai arrebentar!" Aí ele: "E agora, como é que é essa tua aí?" Aí eu. "Presta atenção pra entrada: pá-rá-pá-pá..." Aí ele: "Me amarrei, cara, tá transado, tá transado." Era a confiança que tinha um no outro.

Mesmo com toda a precariedade, os anos 74/75/76 foram momentos de glória para os bailes. Uma equipe como a Soul Grand Prix, que cresceu rapidamente, fazia bailes todos os dias, de segunda a domingo, sempre lotados. Existia uma grande circulação de equipes pelos vários clubes e de um público que acompanhava suas equipes favoritas aonde quer que elas fossem, facilitando a troca de informações e possibilitando o sucesso de determinadas músicas, danças e roupas em todos os bailes. A divulgação dos locais das próximas festas se dava primeiro apenas com faixas colocadas em ruas de muito movimento, e o anúncio era feito pelos próprios discotecários no final de cada baile. Depois apareceram os prospectos e a publicidade na Rádio Mundial. (...)"
in: "O mundo do funk carioca". Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, pp. 24-26.

"(...) Em 1926, a coluna social "Noticiário elegante" publicada na Revista da Semana registrou a primeira visita que um jovem antropólogo pernambucano, o "Doutor" – como fez questão de frisar o colunista – Gilberto Freyre, fez ao Rio de Janeiro. Ele conheceu a capital do Brasil aos 26 anos, depois de já ter realizado seus estudos universitários nos Estados Unidos e de ter visitado vários países europeus. Tal fato, a possibilidade de conhecer o "Primeiro Mundo" antes da "principal" cidade de seu país, é apontado várias vezes, e quase com orgulho, em vários trechos de seu diário "de adolescência e primeira mocidade", publicados no livro Tempo morto e outros tempos. Sua formação intelectual não dependeria em nada do "Sul" brasileiro.

No mesmo diário ficou registrado um acontecimento singular da passagem de Gilberto Freyre pelo Rio de Janeiro: Sérgio e Prudente conhecem de fato literatura inglesa moderna, além da francesa. Ótimos. Com eles saí de noite boemiamente. Também com Villa-Lobos e Gallet. Fomos juntos a uma noitada de violão, com alguma cachaça e com os brasileiríssimos Pixinguinha, Patrício, Donga (Freyre, 1975: 189).

O estilo é telegráfico. É preciso esclarecer, para dar uma idéia da importância histórica dessa pouco lembrada "noitada de violão", quem são as pessoas que dela participaram. Sérgio é o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Prudente é o promotor Prudente de Moraes Neto, também conhecido como jornalista sob o pseudônimo (na verdade, seus dois primeiros nomes) de Pedro Dantas. Villa-Lobos é o compositor clássico Heitor Villa-Lobos. Gallet é o compositor clássico e pianista Luciano Gallet. Patrício é o sambista Patrício Teixeira. Donga e Pixinguinha ficaram imortalizados com esses apelidos no panteão da música popular brasileira.

O encontro juntava, portanto, dois grupos bastante distintos da sociedade brasileira da época. De um lado, representantes da intelectualidade e da arte erudita, todos provenientes de "boas famílias brancas" (incluindo, para Prudente de Moraes Neto, um avô presidente da República). Do outro lado, músicos negros ou mestiços, saídos das camadas mais pobres do Rio de Janeiro. De um lado, dois jovens escritores, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, que iniciavam as pesquisas que resultaram nos livros Casa-grande e senzala, em 1933, e Raízes do Brasil, em 1936, fundamentais na definição do que seria brasileiro no Brasil. À frente deles, Pixinguinha, Donga e Patrício Teixeira definiam a música que seria, também a partir dos anos 30, considerada como o que no Brasil existe de mais brasileiro. Ouvindo os depoimentos dos participantes, parecia natural, evidente, que tal encontro ocorresse, que ambos os lados se sentissem "em casa" (o cordial Brasil mestiço) quando reunidos. Como falha, Pedro Dantas se lembra de que, "no final da noite, Patrício lamentava apenas a ausência de algumas cabrochas para a brincadeira ser completa" (Dantas, 1962: 197) (...)."
in: "O mistério do samba". Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995, pp. 19-22.