ENCONTRO MARCADO    
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FERNANDA MONTENEGRO

Civilizada e civilizadora
por Caetano Veloso

"Há artistas que nos abalam com a potência do seu gênio; muitos, na tentativa desesperada de salvar o mundo, dele se afastam, às vezes virando as costas à própria arte, à vida mesmo. Fernanda, artista de gênio, em nenhum dos três itens foge ao centro: no meio do mundo, no meio da arte, no meio da vida. É assim que eu a vejo, ela mesma pouco entendendo seu próprio destino. Esse destino que confere ao seu trabalho uma dimensão que transcende a evidente excelência: suas criações são como os romances de Machado, os poemas de Drummond – descobrem (inventam) o sentido do nosso modo de ser; nos fundam, nos filtram, nos projetam. E nos acenam com enormes tarefas.

Fernanda nos comunica responsabilidade. Do jovem ator talentosíssimo que me disse "essa veio para ensinar", ao presidente da República que a queria ministra da Cultura, todos revelam intuir nessa mulher feroz e serena uma vocação de líder moral. É que ela é civilizada e civilizadora. Ela é a encarnação da civilização brasileira possível. Ela é a grande dama do teatro brasileiro. (...) Em cena, ela estende um pano sobre a mesa, em silêncio; e tudo está dito sobre a mulher, a elegância, a condição humana e o teatro. De costas para a platéia, sua pele muito branca irradia uma imensa onda sensual, feita de fragilidade e firmeza, coragem e recato".
in: "Fernanda Montenegro. O Exercício da paixão". Lúcia Rito. Rio de Janeiro: Rocco, 1990.

"Descobri Arlette e aprendi muito com Fernanda Montenegro. Uma atriz que começou no rádio; descobriu o teatro, inaugurou a televisão no Brasil; foi discípula de Morineau; trabalhou com Maria Della Costa, com o TBC; fundou com Gianni Ratto, Fernando Torres, Ítalo Rossi e Sérgio Britto o Teatro dos Sete; sobreviveu à censura; fez cinema; foi convidada para ser Ministra da Cultura; recebeu todos os prêmios do teatro brasileiro e continua ativa, apesar das dificuldades cada vez maiores, enfrentadas por quem vive de fazer arte neste país".
Lúcia Rito, "O exercício da paixão". In: "Fernanda Montenegro. O Exercício da Paixão". Rio de Janeiro: Rocco, 1990.

Retratos em 3x4 de alguns amigos 6x9
por Millôr Fernandes

"Fernanda é tudo o que sobrou do que sempre me ensinaram. A sombra dos quarenta graus à sombra. Procurem seus gestos no vocabulário – estão todos lá. Pois sua vida é um palco iluminado. À direita, as gambiarras do perfeccionismo. À esquerda, os praticáveis do impossível. Em cima, o urdimento geral de uma tentativa de enredo a ser refeita todas as noites, toda a vida. Atrás, os bastidores, o mistério essencial. Embaixo, o porão, que torna viáveis os mágicos e onde, faz tanto tempo, enterramos o ponto".
Veja, junho 1976. Texto reproduzido em RITO, Lúcia. "Fernanda Montenegro. O Exercício da Paixão". Rio de Janeiro: Rocco, 1990.

"Ela é técnica no sentido de saber dominar o corpo, a voz, de não deixar o emocional vir às cambulhadas. Mas nunca se repete, porque o teatro para Fernanda é vida.
Ela é uma diva, um ser especial diante do universo mágico do teatro, um dos duendes da magia teatral. Quando entra em cena, deixa uma marca. Tem carisma, uma presença fortíssima".
Renata Sorrah. In: RITO, Lúcia."Fernanda Montenegro. O Exercício da Paixão". Rio de Janeiro: Rocco, 1990.

"Não se sabe o que mais admirar nela: se a excelência da atriz ou a consciência, que ela amadureceu, do papel do ator no mundo. Ela não se preocupa somente em elevar ao mais alto nível sua arte de representar, mas insiste igualmente em meditar sobre o sentido, a função, a dignidade, a expressão social da condição de ator em qualquer tempo e lugar".
Carlos Drummond de Andrade. In: MONTENEGRO, Fernanda. "Viagem ao outro". Rio de Janeiro: MinC/Fundacen, 1988.