ENCONTRO MARCADO    
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ELIANE MACIEL

"Escrever o meu perfil. Ora um perfil! Daqui, rabugentamente sentada sobre a banqueta de meu escritório, em serranas plagas, que divido com quatro filhos – um ninho de águias; ou casa na árvore; ou nave espacial provisoriamente ancorada a três metros da terra firme, num segundo andar –, confesso que experimento algo estranho, quando me solicitam que escreva um perfil pessoal. Sei lá se terei a mesma cara amanhã, ora bolas! Mas, se não tiver, paciência: faz parte dessa minha função brincar de saber mexer com as palavras, para cristalizar em doce ou em sal, dependendo da ocasião, as pequenas fatias desse louco tempo. Juntos estamos assistindo a um novo milênio desfilando diante de nosso camarote... Que Deus me preserve, pelo menos, os olhos abertos.

Engraçado esse ofício de escritor, de se contar. Não encontro, nesse momento, melhor definição de mim do que dizer que me fiz, por excelência, uma descumpridora de regras, desde que sejam imbecis. Sim, registrem no meu dossiê, senhores, eu confesso por antecipação: enquanto consciência me sobrar, e correndo o risco de cometer todos os erros do mundo, ainda assim declaro que desobedecerei, inclusive à chatíssima regra imbecil de ser uma desobediente eterna. (...)

Com toda razão, não poucos me acusam de ter escrito coisas que não ficam bem a uma mocinha delicada... A uma mãe de família, então, Deus me livre! E o resto todo da minha composição cósmica, de uma aquática e torturante sensibilidade sem condescendências, aponta a única trilha possível: mais que por ofício, a profissão de fé é essa mesma – escrever.

Por conta do que contam – e de que não me lembro – consta que fui uma perguntadeira sem fim, dessas que desde pequenininha querem saber o porquê de um monte de coisas. Mas o fato aponta: quando não achei por perto todas as respostas, fui longe, vida adentro, mundo afora, para procurar-me nas minhas mais importantes esquinas (...)

Ainda agora, sinto um prazer enorme em pensar, e em perguntar. E meu passatempo favorito é experimentar tudo que seja realmente novo, e esteja acima de nossos velhos embustes, que trocam máscaras de bonecas rotas para fingir novos brinquedos. Daí que, inventando a mim mesma, não pude me livrar de explodir o laboratório uma meia dúzia de vezes. A mais significativa dessas demolições foi aquela em que escrevi um livro aos dezesseis anos e saí por aí, cismada de publicar, achando porque achando que os adolescentes de dezesseis anos tinham muito o que dizer. E, afinal de contas, puxa vida, se as minhas maltraçadas linhas me escreveram escritora, por que começar por outra história que não fosse a minha?! Até quando nós, as mulheres ditas menores – em direito e em idade – iam permanecer sem direito, sequer, de espernear; esperando terem lá um aval oficial da maturidade para se colocarem?! Foi um dos meus mais deliciosos delírios. E vocês nem queiram saber o quanto me custou esse saliência! Encontrei bandos inteiros de morcegos disfarçados de passarinhos. Mas, entre mortos e feridos, todos se salvaram. (...)

Tenho mesmo os meus períodos de lagarta e de crisálida, antes de "borboletar".

Pois é: vivo. Sou uma sempre-viva difícil de murchar. Já houve quem se queixasse de que as minhas pétalas são duras, arranham mais do que acolhem, porque amo mais como navalha do que como travesseiro... Sei lá. Em minha defesa, gostaria de deixar registrado, talvez, que as sempre-vivas sempre soltam mais perfume quanto mais a gente as deixa ficar por perto, com suas gigantes cores quietas. E são mais constantes do que outras flores, que não resistiriam ao primeiro vento frio que se aproximasse de sua janela... Sem medo de errar, declaro-me, para encerrar, uma amiga prestante.

(E hoje os tenho aos montes – alguns dos melhores são os escritores que li. Mortos ou vivos, eles ecoaram a minha alma em suas palavras que venceram o tempo... Era um pouco disso que eu queria ser para você. Que tal a idéia? Me diga até o fim do texto!)

FIM DO TEXTO

Perfil escrito para a coleção Fatos e Relatos