ENCONTRO MARCADO    
VÍDEO    BIO    OBRA    EXCERTO    CRÍTICA 
DIAS GOMES

A alguns parecerá, talvez, até anacrônica essa rotulação de esquerda e direita, nos dias de hoje, quando a bipolarização política do mundo caiu por terra, como por terra caiu o muro de Berlim e outros muros ideológicos. Até já se proclama o fim do socialismo – e todos os idiotas do mundo ostentam um sorriso de vitória. Como se um erro histórico significasse o definitivo fim de um sonho generoso que a humanidade alimenta há séculos – o sonho de um mundo mais justo, uma sociedade igualitária onde o homem possa exercer a sua vocação de liberdade. Ao contrário do que pensam, o sonho não morreu, porque é ele que impulsiona a História. Nem morrerá nunca, porque é inerente ao que de melhor existe na natureza humana. Porque com ele comungam os homens de bem.
E os escritores da cadeira 21 foram todos homens de bem, voltados para as grandes causas. Divergências circunstanciais, posicionamentos históricos equivocados de um ou de outro – e erros todos cometemos – não eliminam a visão comum diante do essencial. Por isso senhores acadêmicos, é com muito orgulho que hoje ocupo esta cadeira, para a qual me elegestes em vossa generosidade. A mim, modesto escritor de ofício, cujos caminhos nunca me pareceram poder trazer-me a esta casa. Confesso que me sinto ainda constrangido e perplexo em me ver dentro deste fardão, nunca supus que isso um dia pudesse acontecer. Olhando-me de fora, pergunto-me o que teria mudado, eu ou a Academia? Pois, muito embora todas essas afinidades que encontro com os antigos ocupantes dessa cadeira, sempre me imaginei numa postura artística e filosófica que me vedava as portas dessa ilustre casa, onde tenho, aliás, grandes amigos. Foram eles, sem dúvida, que me trouxeram para cá. Mas, neste momento, é bom, é justo, é importante reconhecer: nem eu mudei, nem a Academia. Ela me aceita como sou, inconformado escritor do meu povo, engajado no sonho de vê-lo livre e feliz. Tal como já acolheu a outros, que a honraram e a honram, ecumenicamente, generosamente. Destina-me uma cadeira na qual me sinto confortável. Não fosse esta, a cadeira 21, como a batizou Adonias Filho, a cadeira da liberdade.

Trecho final do discurso de posse de Dias Gomes na Academia Brasileira de Letras.