ENCONTRO MARCADO    
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DEONÍSIO DA SILVA

Teresa

Os últimos 40 anos nos trouxeram grandes novidades. Vencemos os mouros, expulsamos os judeus, domamos o mar e fomos descobrir novas terras do outro lado do mundo. Todas as lembranças destes feitos gloriosos ainda estão fresquinhas na memória do povo. Como bálsamo para uns, como salmoura para outros.

Por isso, aqui em Ávila, como em toda a Espanha, os reis católicos, em sinistras parcerias, querem corrigir tudo: a história, a geografia, a religião, o mar, a natureza, os costumes. Somos uma cidade sem mar. Afora, pois, o oceano, todos os outros elementos estão sujeitos aos mesmos decretos amedrontadores afixados em lugares públicos, principalmente nas igrejas. Ninguém pode alegar ignorância das ordens reais. Além dos editos que a todos apavoram, os governantes arrancaram uma brutal obediência da sociedade, que os admira pelos altos feitos que quase todos lhes creditam.

Os insubmissos são poucos e estão sob controle, onde quer que vivam. Todos são católicos. Quem não era já morreu ou foi expulso do reino. A fé e o terror nos uniram de modo a formarmos um povo corajoso e doido, mas coeso e obediente ao redor das cortes, das igrejas, dos claustros. A autoridade emana diretamente de Deus sobre as cabeças coroadas pela Santa Sé. Ainda assim, nosso rei não está subordinado a ninguém neste mundo, nem mesmo ao papa, de quem está ao lado, nem abaixo nem acima.

A sagração teve sua rede de metáforas. Todos ali presentes sabiam que a Igreja cumpria ordens de outras casas européias. Formamos um grande colegiado, onde nem o poder religioso impõe-se ao político nem este àquele. Governamos o mundo em parceria. Se não podemos contrariar Roma, é certo que Roma também nada faz sem consultar-nos. Derrubado foi o Império Romano, não a Igreja. Ela elevou-se dos escombros muito mais forte do que antes.

É verdade que ao norte os seguidores de Lutero dividiram nossos domínios. Mas na América recuperamos todo o terreno perdido na Europa. O Novo Mundo é nosso. Para cada católico perdido para os protestantes, nossas ordens religiosas conseguiram cem gentios dispostos a aceitar a nossa fé. Caso também entre eles surjam alguns recalcitrantes, e o Evangelho, que deve entrar pelos olhos e os ouvidos, não seja suficiente para amolecer seus corações, usamos outros recursos e, em último caso, o bacamarte. Antes morto, que herege. Chegam os judeus que já nos deram e dão ainda tantas aflições e trabalhos!

Romance: "Teresa". São Paulo: Editora Mandarim, 1997.