ENCONTRO MARCADO    
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DEONÍSIO DA SILVA

O meu nome, como o do outro, é Legião. Somente Deus tem unidade. Eu, não. Um escreve, outro dá aulas na universidade, um terceiro conversa à beira de copos e rostos naquela mesa que está cada vez mais longe. Dos amores, pois é. Falar deles. Minha filha Manuela. Quando nasceu, vários corações começaram a bater no meu peito. A Soila, sua mãe, minha eminência loura que me deu uma felicidade morena. Os sentimentos com freqüência se desarrumam, se rearrumam para desarrumar-se outra vez. A água do amor nos foi dada a beber em mais de um copo. Cada um com seu sabor.

Não tenho os anos que os documentos me dão. Esses são os que não tenho mais, pois já foram vividos e deles ficou apenas a memória, que sempre brota à procura dos sentidos. Da infância não tenho saudade nenhuma, a não ser a lembrança de que em Siderópolis, Santa Catarina, a poluição estava embaixo e a pureza em cima. O carvão escurecia tudo na várzea, mas em cima da serra, a poucos metros dali, a água era limpa e pura. A virtude era vizinha do vício. Assim fui feito: de carvão, de riozinhos, das delicadezas da vovó gaúcha, das licenciosidades do vovô de origem italiana, da paciência carinhosa de meu pai, capaz de me ouvir até a última palavra, para depois concordar ou discordar, do vendaval que vinha da fala de minha mãe, sempre atarefada com tantos filhos, do retrato de Getúlio Vargas ao lado do Crucifixo e da Nossa Senhora Mãe dos Homens. E assim fui me ligando às minhas tias. O complexo de Édipo, entendemos. Como denominar a falta que nos faz uma tia?

Sou um homem inteiramente dedicado às letras, um cidadão de papel. Na solidão me construo. Mas as companhias são sempre uma grande tentação. Abraçar árvores, ouvir ventos e saber que quem está na chuva é para nela se molhar.

Conversa clara e trato justo, coisas cada vez mais raras. Mas fica melhor de viver se elas estão presentes. A vida é complicada, não foi feita para os monótonos, uma seita perdida e herética. Escrever? Que outros enriqueçam, busquem dinheiro, propriedades, aumentem seu patrimônio. Jamais saberão o gosto que tem você criar uma frase, inventar uma mulher, rir de um desafeto. Escrever não é para quem quer. É para quem pode. E quem pode é um torto na vida. Sempre será. Escrevo porque estou infeliz e inconformado com a crueldade e a safadeza do mundo.