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A Guerra das Imaginações

(...) Michelangelo colocou sua capa verde-esmeralda e ficou parado na porta da Capela Sistina à espera do escutar de um sininho para poder entrar. Nada tilintava e a impaciência começou a provocar no escultor um ajeitar compulsivo do manto. Sua altivez e inato porte principesco estavam sendo corroídos, desarmados por uma porta de carvalho.

Todo o séquito se retirou e Júlio II ficou só em seu trono. Em vez de ordenar que a abadessa tocasse o sininho, o Santo Padre guardou silêncio como se estivesse hipnotizado por uma nova neblina.

Abadessa, chame o doutor Vigo!

Por protelar a audiência com Michelangelo, Júlio II desencadeou no espírito do escultor uma espécie de sangramento de pequenas iras, reação típica de todo aquele que tem seu orgulho ferido. Impossibilitado de chutar a porta ou esbravejar feito criança, o gênio atacou as suas próprias carnes e roeu várias unhas.

Assim que Vigo entrou na Capela, o papa formulou uma questão definida pelos sábios como irrespondível.

O que é a loucura?

Santidade, a loucura é o caos.

Só isto, Vigo? E por que dizem que a maioria dos artistas são loucos?

Se a Santidade me permite, creio que a loucura precede a arte. Assim sendo, seriam praticamente vizinhas no ciclo da criatividade.

Que ciclo é este?

Santidade, pense bem. A loucura precede a arte. A arte precede a ciência. A ciência precede a verdade! A verdade é Deus! Deus sempre precede a loucura. Porque é Ele quem permite o caos! É assim que gira o ciclo da criatividade. Loucura, arte, ciência, verdade, Deus. Loucura de novo. E o ciclo se repete infinitamente e além na espiral da criatividade.

Ora, veja só. Doutor Vigo, se entendi corretamente a arte é mais importante do que a verdade.

Nada é mais importante do que a verdade, pois ela é Deus, Santidade. Porém a arte pode emocionar os humanos muito mais que a verdade e até ultrapassá-la. E isto é uma verdade.

Vigo! Isso quer dizer que só a arte pode vencer a realidade!

Por mais absurdo que possa parecer, Santidade. A arte sempre será mais eterna do que a realidade fugaz. Sim, pode-se afirmar sem constrangimentos que só a arte vence o real.

O que aconteceria se a cristandade tivesse de escolher para culto entre um autêntico serafim engaiolado e a pintura de um anjo que emanasse em arte o Divino?

É quase certo que os homens trucidariam e comeriam o verdadeiro anjo com as próprias mãos. E idolatrariam a pintura em lugar da verdade.

Perfeito. Era justamente o que eu suspeitava. Filippo pode revelar ao mundo o que quiser, porque meu exército será a arte de Michelangelo. Pode se retirar, Vigo.