ENCONTRO MARCADO    
VÍDEO    PERFIL    BIO    OBRA    EXCERTO    CRÍTICA 
DOC COMPARATO

Ah! Este difícil ato de se explicar

Tenho uma verdadeira fixação por relógios.

Uma filha descobriu estarrecida que em cada um dos cômodos da casa, inclusive nos banheiros, existem pelo menos dois deles marcando a perpétua centelha do tempo.

Um absurdo? Talvez mania, e que não tem nada a ver com decoração. Silenciosos, não foram colocados para serem admirados, parecem mais sentinelas de um poder maior que nos observa. É assim que sinto.

Confesso que como todo ser humano sou incapaz de recordar o instante de meu nascimento. Deveria ser possível. Dizem que nasci mais morto que vivo entre postas de sangue. Acabei vencendo.

Tenho lembranças difusas do rosto jovem dos meus pais. A sensação de volumosos corpos que me abraçavam e aninhavam. Odores refrescantes com sabor de maçã. Do cheiro da chuva. De ter soprado talco pela primeira vez. Uma beleza, a minha bicicleta.

O tempo, o invisível que deixa marcas. Esse tema sempre me cativou e perseguiu. Por isto tenho relógios em quantidades, porque tanto eles como os calendários me parecem totalmente desregulados.

Olho para trás e pergunto como foi que vivi um determinado mês, um certo período e não encontro respostas. Caio em lacunas.

Lembro que um dia descobri que tinha vinte e cinco anos e era médico. Tenho a impressão que vivi aos pulos num enorme jogo de amarelinhas sem princípio, meio ou fim. Num jogo labiríntico e contínuo.

De calças curtas brincando no escritório de meu avô à universidade foi um sopro. Que se passou no intervalo? Tantas coisas. Lembro de perdas, da morte de minha madrinha. Das felicidades e das fúrias. Do sexo explodindo e escorrendo em manchas pela calça, do primeiro cigarro tragado.Dos amigos. Da bossa nova. De minha existência na Inglaterra. Me vejo porteiro de um hotel fuleiro em Paris a chofer fardado na Espanha. Tudo confuso mesmo, embolado como um beijo na boca.

Só sei que um dia acordei para uma doce realidade: encontrei minha identidade, quer dizer, ela me achou e comecei a escrever. Escrever. Escrever.

Agora meço o tempo através dos livros, roteiros e peças que crio. Da ficção que imagino. Das filhas que nascem. Das paixões que vivo.

Estranho mecanismo esse de marcar o tempo. Estranho e perverso, porque o meu tempo interior nunca mais marchou na cadência do tempo exterior.

Olho para o relógio do escritório. Há quanto tempo estou escrevendo esse texto? Vivi minutos através de palavras. Talvez devessem ser outras as palavras. Confessar que possuo todos os defeitos e qualidades encontráveis em qualquer ser humano. Das piores às mais louváveis. Infelizmente não sou capaz de quantificá-las com precisão, daí resultando a incapacidade de me auto-retratar por inteiro.

Por isto me vejo aos pedaços, sempre. Como se fosse um relógio de ponteiros indicando uma determinada hora, depois outra e outra. A cada instante buscando uma surpresa, tentando construir um momento diferente em cada folha de papel. Único lugar onde me sinto livre e capaz de, tomando impulso no passado, celebrar o presente e sonhar com o amanhã.