ENCONTRO MARCADO    
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CHICO ANYSIO

O Vestido de Tafetá

Apresento-lhes o Sr. Horácio, ex-amanuense, ex-proprietário de uma casa de doces que servia à Colombo, ex-tipógrafo de uma gráfica na Rua do Sabão, onde eram impressos os trabalhos literários de Emílio de Menezes, ex-torcedor do Andaraí F.C., ex-vizinho de Noel Rosa ("esse menino ainda vai longe!" – costumava dizer), ex-speaker da Rádio Cruzeiro do Sul. Com tanto ex a co-enumerar os seus feitos e profissões, pode-se calcular a idade do Ex-Horácio em redor dos 90 anos, não bem vividos, porque, no ex-Rio, a vida era bem menos confortável do que a que agora é dada aos novos Horácios, mas, na pior das suposições, bastante variada porque, além do citado no seu curriculum vitae, há que se juntar outros pontos importantes: ex-contemporâneo de Bilac, ex-amigo do Barão de Itararé, ex-cabo eleitoral de Antônio Carlos ex-etc.

Horácio Vivacqua é casado com D. Natália (a quem chama Nazinha) Peçanha, mulher do Império e que nele parece continuar a viver. O fato de Nazinha ser um ano e meio mais velha do que Horácio serviu de complicação para a vida do casal. Um lá e cá compreensivo. Ela, com um pouco mais de meses, mordia-se de ciúme do seu Horácio, sempre no temor de que ele encontrasse, pelos caminhos da vida, alguém mais jovem e, por isso, mais tentadora; ele, corroendo-se pelo temor de que D. Nazinha se encantasse por um Paula Ney qualquer, que lhe soubesse dizer frases que jamais Horácio seria capaz de compor.

Este mútuo ciúme fez com que o casal, junto com as bodas de Ternura (75 anos de casados não merecem outro nome), completasse, igualmente, as bodas de Guerra, porque foram 75 anos de brigas diárias e enfadonhas. Os motivos? Quaisquer. O casal Vivacqua digladiou-se por causa de médicos ("a próxima vez que aquele doutorzinho pegar no seu pulso com aquela cara, dou-lhe com um castiçal!"), enfermeiras ("eu vi o jeitinho com que ela passou o algodão no seu braço, pra aplicar a injeção"), leiteiros ("e na hora de entregar o leite ele precisava dizer aquele bom-dia meloso?"), copeiras ("virava os olhos, na hora de tirar a mesa, a cadelinha!"), escrivães ("quando perguntou o seu nome, pensei que ia perguntar seu telefone, também"), professoras ("deu um beijo no menino de olho em você, como quem diz: não posso beijar o pai, beijo o filho"), dentistas ("a delicadeza com que extraiu o dente foi de dar na vista; comigo é vapt-vupt, com você foi cheio de coisinhas, tá doendinho, tá machucadinho?"), vizinhas ("deixe ela vir de novo pedir ovo emprestado!") e por 75 anos Horácio e Nazinha fizeram da vida uma guerra quase crescente de mútua desconfiança.

Mas ali estava o usado e cansado par de amantes em torno da mesa, filhos à volta, netos ao lustre, vizinhos ao redor, amigos à espreita, comemorando 75 anos de brigas em comum.

Horácio no ex-terno do casamento e Nazinha curtindo um vestido lindo, de celeste azul, com chiado gostoso de tafetá a cada passo lento que dava de um lado para o outro atendendo aos convivas.

A idade dos dois, somada, ganhava longe da soma total do que tinham, em anos, os filhos e os netos.

181 anos de amor preparavam-se para cortar o bolo que era representado por uma trincheira (brincadeira que os filhos preparam, modo encontrado de gozar as desavenças amorosas que havia entre os dois). O verbo vai no passado porque, com as bodas, festejava-se o oitavo ano de trégua. Não se dera ordem de cessar fogo nem houve um que levantasse a branca bandeira da paz. Simplesmente, com a idade, resolveram, de um dia para o outro, que não havia mais motivos para dúvidas ou contendas.

Na hora de partir o bolo comemorativo a faca foi posta na mão do simpático Horácio que, com o mesmo antigo cavanhaque que já voltava a ser moda, preparou-se para iniciar a partilha.

– Não – gritou um filho – sozinho, não. Mamãe, pega na faca junto com papai. Têm que ser as duas mãos juntas.
Como no dia do casamento, igual que no bolo dos 10 anos, nas bodas de prata, nas de ouro etc. Não era a primeira vez que as mãos se uniam num repartir de bolo. Assim fizeram e, antes de entregar o primeiro pedaço a quem julgava merecer, o velho Horácio puxou um pigarro da ex-garganta e, de voz calma e o mais alto que lhe permitia a idade, declarou aos presentes:

– Quero comunicar que esta festa de comemoração dos 75 anos de casados, merece, como fundo musical, a Valsa da Despedida. Hoje, após a saída do último de vocês, mudo-me para um hotel. Vou-me separar de Nazinha.
A sala assumiu o aspecto de um velório. Era tão grande a quietude gerada pelo pasmo que se conseguiu ouvir a fina e quase ausente voz de D. Nazinha:

– Por que, Horácio? O que foi que eu fiz? – perguntou ela. – O que foi que eu fiz? – insistiu, dizendo a frase que mais dissera no correr da vida.

Horácio Vivacqua, de olho rútilo e nervos tensos, não olhava a mulher nos olhos, mas destruía (ou tentava isso) o vestido de tafetá.

– Não queira bancar a santinha. Você botou esse vestido para me humilhar. Era com ele que você estava naquela tarde.
– Que tarde? Aquela do ajudante de ordens do Marechal Floriano?
– Está vendo como você lembra? – disse Horácio, jogando o bolo ao chão e retirando-se à procura do Hotel Central (que ele nem sabia já ter sido posto abaixo), enquanto D. Nazinha, com princípio de enxaqueca, dirigia-se ao seu quarto para escrever mais uma página do décimo terceiro tomo do seu diário.

Enquanto subia as escadas, o tafetá fazia um ruído que parecia um chlec-chlec... chlec-chlec...
Como sempre.

Retirado do livro "O Batizado da vaca" (contos). Rio de Janeiro: Rocco, 1972,.