ENCONTRO MARCADO    
VÍDEO    PERFIL    BIO    OBRA    EXCERTO    CRÍTICA 
CHICO ANYSIO

Eu nasci em Maranguape, no Ceará, num dia 12 de abril, às 5 horas da manhã. Alí estava chegando o quarto filho do Coronel Oliveira e de D. Haydée, que seria caçula por sete anos. Era uma casa pobre, de telha-vã, chão de terra batida e um alpendre nos fundos que dava para o mato. Logo depois corria um rio, durante o inverno, antes da entrada do canavial que se estendia verde por mais de um quilômetro até o engenho que dava frente para a praça e ficava ao lado da Igreja do Padre Quinderé. Brinquei de tudo no terreiro desta casa que até hoje esta lá, em pé, impávida, imponente (tudo isto para mim). Joguei "goal-a-goal" com bola de meia, brinquei de bola de gude (lá é cabeçulinha), montei a cavalo em galho de palmeira e tomei muito banho nas cacimbas que o rio, já secando, deixava que se formassem no seu leito. Em Fortaleza, eu morava no Benfica, na Av. João Pessoa, numa casa por onde no seu oitão, os ônibus da empresa que meu pai conseguiu criar, entravam para dormir na garagem que ficava nos fundos da casa. Esta casa também continua lá, resistindo. Meu pai era presidente do Ceará Sporting e implantou o profissionalismo na terra. Só prá discutir com ele eu torcia pelo Ferroviário, o meu Ferrim do coração. Elano, meu irmão mais velho, o orgulho grande da família, viajou para estudar no Rio. Sozinho. Macho danado. Eu fui ficando por lá, estudando com D. Adalgisa, na Rua Padre Mossoró. Nunca entrei em nenhum colégio no Ceará. Acho, até, que nem precisava, porque eu aprendi a ler sozinho. Enquanto minha mãe costurava eu perguntava o que formavam aquelas duas letras e aquelas outras duas, e as outras duas... Um dia eu disse que sabia ler e meu pai me garantiu que se eu lesse um convite de casamento que ele acabara de receber, me levaria com ele para passar o dia em Fortaleza. Eu li todinho. Não me lembro do que fiz em Fortaleza naquele dia, mas nunca vou esquecer a cara de espanto e de alegria que meu pai fez ao me ver lendo aquilo, cheio de Ilmo. e Exmo.

Meu pai foi ficando rico. Tinha os melhores e maiores ônibus do Brasil, com rádio, poltrona de veludo, ar refrigerado, um luxo. Um dia as poltronas apareceram rasgadas a faca ou coisa assim. Meu pai se danou e mandou botar banco de pau, alem de tirar o ar e o rádio. Minha meninice foi gloriosa. Ser filho do Coronel Oliveira Paula era coisa de muito luxo. Até que uma noite – o Zelito já era nascido – o fogo acabou com tudo. Não sobrou nada na garagem. A Empresa São José (Telefone 1254) virou um monte de cinzas e provocou a volta de uma pobreza. Meu pai quis ficar sozinho por lá para recomeçar a vida e mandou a familia toda para o Rio. Viemos no Itapagé, que depois seria torpedeado pelos alemães, segundo me disseram. Fomos morar na pensão do "Seu" Bernardino, na Rua Silveira Martins 135 e que também existe até hoje. Minha mãe recebia uma mesada e anotava num caderno "Avante" tudo que gastava, porque o dinheiro era contado e medido. E foi ali, no Catete, que eu me fiz adolescente. Sempre morei por ali: entre o Catete e o Cosme Velho. Na casa do Cosme Velho, Rua Marechal Pires Ferreira, 80 (que também está lá até hoje) eu morava quando, levado por minha irmã Lupe e o Oromar Terra, um amigo dela, fui fazer teste na Rádio Guanabara. Fui aprovado nos dois testes que fiz: como locutor e como radio-ator. Pronto. Eu agora estava no rádio. Era 1947. Eu tinha 16 anos e, ao que parece, algum talento, porque até hoje estou por aqui, fazendo o que é possivel para fazer feliz este povo brasileiro (paixão maior da minha vida) porque é ao povo do Brasil que eu devo tudo que tenho e tudo que sou. Muito obrigado. Principalmente a você que me leu até aqui.