ENCONTRO MARCADO    
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CARLOS HEITOR CONY

Quase Memória
Cap. 3

Não é essa a primeira – nem será a última – que, inconscientemente ou não, associo o pai ao padre Cipriano. Um continuou o outro e, apesar das diferenças e contrastes, eram mais que semelhantes. Apenas padre Cipriano, quando recitava Homero em grego ou Horácio em latim, sabia o que estava fazendo. O pai embromava, volta e meia rosnava uns versos que, apressadamente, podiam ser considerados franceses. Ele garantia que eram ora de Racine ora de Corneille, mas tenho a certeza que não eram de um ou de outro.

Aluno do internato Pedro II, no velho casarão do Pedro II em São Cristovão – onde meu irmão mais velho também estudaria –, teve o curso de humanidades até então obrigatório, mas nem por isso seu domínio do francês era notável, tampouco teve muita oportunidade de praticá-lo.

Já padre Cipriano estudara em Roma, era o único padre da arquidiocese do Rio de Janeiro que conseguira os três doutorados na Universidade Gregoriana: o de filosofia, o de teologia e o de direito canônico.

Durante algum tempo ele usou o título de padre-doutor, depois aboliu o "doutor", segundo constava entre os alunos, por causa de um equívoco: lá em Itaipava, um dos empregados da fazenda, com a mulher parindo, foi acordá-lo no meio da noite, pensando que ele fosse mesmo doutor – para o homem do interior, ao menos naquele tempo, doutor era obrigatoriamente médico.

Houve outro lance em que o pai e padre Cipriano estiveram unidos, um em cada ponta da corda, corda que me sufocava de raiva contra o mundo, não contra eles.
Padre Cipriano havia feito caprichada mesa de futebol de botão. E como tinha a mania de organizar campeonatos (até campeonato de odes latinas ele fez, foi meu professor durante seis dos oito anos que passei no Seminário), estabeleceu que cada aluno arranjasse um time completo, o que equivalia a dez botões, sem contar o goleiro, que podia ser uma caixa de fósforos.

Foi difícil arranjar dez botões para armar os times. As batinas tinham muitos botões, botões até demais, mas nenhum deles servia para o jogo. Cada colega fez o que pôde. Quando o pai soube da nova e inesperada necessidade do filho, tratou de se virar. Não era o caso de incomodar tia Alzira, nem o procurador, mandar telegramas para a calle Yi em Montevidéu, na América do Sul. Comprou-me um jogo de botões de plástico, enormes, já com o escudo do Fluminense (meu time) na parte de cima.

Diante dos times que apareceram no campeonato, o meu era até covardia. De tão grandes e altos eles bloqueavam o campo de tal maneira que seria impossível o adversário fazer gol contra mim.

Mas nem cheguei a estreá-lo, embora padre Cipriano não tivesse, apesar de seus três doutorados na Gregoriana de Roma, um argumento válido para confiscá-lo em nome do Eclesiastes, que garantia ser tudo vaidade das vaidades.

Ele mandou que guardássemos os botões num armário que havia nos fundos do recreio e cuja chave ficava em seu poder. Lá se guardavam as frutas ou doces que recebíamos durante as visitas da família, as bolas de pingue-pongue, as raquetes, as redes. Nada de mais que guardasse também os botões que iriam disputar o Torneio Monsenhor Virgílio Lapenda, nosso reitor, de quem aliás padre Cipriano não gostava porque era careca e incapaz de traduzir corretamente uma ode menor de Salústio – autor da decadência do latim.

Bestamente, entreguei a ele meus botões, preciosos botões que estavam fazendo furor antecipado, pois todos julgavam que com aquele time o torneio perdera a graça, valendo apenas a disputa pelo segundo lugar.

No dia seguinte, quando padre Cipriano abriu o armário, todos os botões lá estavam, todos os times, menos o meu.

Alguém os roubara. Havia um empregado do Seminário que morava numa pequena casa, no final da alameda de bambus que terminava na velha piscina que ninguém mais usava. Oficialmente, seu cargo era o de eletricista, tomava conta de todos os fios, tomadas e lâmpadas dos imensos pavilhões em que vivíamos.

Extra-oficialmente, funcionava como bombeiro, mecânico, funileiro, pedreiro, pintor, empalhador de cadeiras e, nos dias de festa, metido num terno de panamá, com gravata-borboleta grená e luvas brancas, servia de maître nos banquetes que oferecíamos à Sua Eminência, o senhor cardeal.

Ele tinha um filho, não me lembro se era ele ou o filho que tinha o apelido de Bem-Te-Vi. Para todos os efeitos, o Bem-Te-Vi-filho era inconteste filho desse Bem-Te-Vi-pai, e ambos, pai e filho, foram acusados de terem roubado os botões.

Padre Cipriano assumiu o papel de Grande Inquisidor, acusando-os pública e genericamente, mas aconselhando a que nada comentássemos, pois monsenhor Lapenda, como reitor, teria de chamar os Bem-Te-Vis ambos às falas, Bem-Te-Vi-pai poderia perder o emprego, e a caridade cristã, como pregava são Paulo, tudo devia perdoar.

Como não me sentisse inclinado a seguir o conselho de São Paulo, padre Cipriano me garantiu que Bem-Te-Vi-pai sovara Bem-Te-Vi-filho, ele ouvira os gritos do guri enquanto rezava o breviário na alameda dos bambus.

Pouco me adiantou. Continuei lamentando a perda do meu time, participei do campeonato com botões de reserva que minha mãe me mandou, botões antigos, de velhos casacos dela, não eram apropriados, pulavam por cima da pequenina bola feita de miolo de pão, fui dos últimos colocados no campeonato. Jurei que odiaria o filho do Bem-Te-Vi pelo resto da vida.

No dia em que fui apanhar a bola de vôlei no quarto do padre Cipriano, não foi só o pote de brilhantina que lá estava: lá estavam, também, meus botões de plástico, enormes, inúteis, com o escudo do Fluminense coberto pela Estrela Solitária do Botafogo – padre Cipriano, quando jogava futebol conosco, fazia questão de usar por baixo da batina a camisa do Botafogo. Seu grande ídolo, naquela época, era um beque chamado Nariz.