ENCONTRO MARCADO    
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CARLOS HEITOR CONY

O Fogão e a Chuva
(Por que escrevo)

O menino tinha um defeito na fala. Até os cinco anos fora mudo, olhava o mundo, olhava as coisas e não dizia nada. Talvez não quisesse dizer nada realmente. Havia momentos em que chorava, em que ria (chorava mais do que ria) e emitia algum som. Nada articulado, sentia que os adultos o evitavam, talvez gostassem dele (tudo era possível) mas sempre davam um jeito de mantê-lo à distância.

O silêncio parecia uma denúncia – o melhor era deixá-lo pelos cantos, ou embaixo da mesa de jantar, ponto de observação que dava ao menino a mesma perspectiva das pessoas pela metade, como nos desenhos animados do Tom&Jerry, onde os humanos só aparecem em forma de pernas.

Começou a falar depois de um susto. Estava na praia de Icaraí, viu um aviãozinho fazer piruetas no céu, depois o aparelho foi baixando, baixando, era um hidroavião vermelho, pousou na água lá longe e veio vindo em direção da praia, o barulho foi aumentando, de repente o menino sentiu pavor, gritou e correu, foram pegá-lo atravessando a pista de carros , por pouco seria atropelado. Desse dia em diante, o menino começou a falar.

Falava errado. Trocava as letras. A língua não tinha flexibilidade para certos ditongos era impossível pronunciar o próprio nome, trocava principalmente o "c" pelo "t", o "g" pelo "d".

Tentaram corrigi-lo, mostravam como devia fazer, algumas sílabas pediam que a língua encostava no céu da boca, assim, veja só, é fácil. Nada disso adiantava, o menino continuava a dizer tavalo, tomida, tachorro, daroto, daragem.

Não podia freqüentar escolas, seria doloroso para ele, os outros meninos cairiam em cima dele, julgando-o retardado. Foi ficando em casa aprendeu a ler e, quase ao mesmo tempo, a escrever.

Foi quando o irmão mais velho fez 12 anos e houve festa em casa. No quintal, formara-se uma roda de garotos onde o menino não podia entrar. De repente o chamaram.

Pediram que ele dissesse: "Dona Jandira adora um fogão" (Dona Jandira era uma vizinha da qual se diziam coisas). O menino empertigou-se e declamou: "Dona Jandira adora um fodão".

Riram. Riram muito e o menino ficou sem saber por que. Passou o resto da festa emburrado, desconfiava que fizera alguma coisa de grave. Somente no dia seguinte, com o caderno aberto, a tinta vermelha que o pai gostava que ele usasse, escreveu diversas vezes a palavra "fogão", "fogão", encheu a página com aquela palavra.

Mostrou o caderno aos outros meninos, ninguém riu. Mas ninguém compreendeu. Então o menino descobriu que ali estava um caminho, um destino. Deveria escrever tudo que pensasse, seria finalmente igual aos outros. Nem se tratava de ser aceito – ele já não dava importância a isso, adquirira o vício da solidão e gostava de ser só.

E quando quisesse, poderia escrever o que sentia e até o que não sentia – escrever era coisa fabulosa. Melhor do que falar, porque quando se escreve é como se a gente falasse diversas vezes, primeiro consigo próprio, depois com os outros. Se houvesse outros.

Bem, a história é comprida, o defeito da fala foi parcialmente corrigido, o menino cresceu e se transformou naquilo que sou eu. Aprendi alguns truques, evito certas palavras, descobri que falando depressa ninguém reparava. Na possibilidade de ir em frente, procurei não ficar atrás. Até que, perto dos trinta anos, mexendo nuns guardados, encontrei um caderno forrado de verde musgo, presente de alguém que não lembrava. Parecia apropriado para um diário, desses que ainda são vendidos em papelarias. Por coincidência, eu tinha uma caneta parker, que era verde, e estava abastecida com tinta verde. Não tenho certeza mas desconfio que verde sempre foi minha cor preferida.

Achei que devia fazer alguma coisa com aquilo tudo, caderno, caneta e tinta. Quase ia escrevendo a palavra ‘fogão" na página de rosto – e por pouco minha carreira literária teria tido um início mais cabalístico do que o desejado. Resolvi nada escrever naquela página. Mas enchi as seguintes, sempre com a tinta verde, e contei uma história que começava numa infância que não era exatamente a minha, mas descrevia um mundo tal como o sentia e ainda sinto.

O caderno foi datilografado numa R.C. Allen, marca não muito conhecida no mercado. Depois comprei uma Remington, mais tarde uma Olivetti portátil, finalmente computador, um notebook, outro notebook – essas máquinas diabólicas são superadas anualmente e me exigem estar atualizado. Detalhe: quando inauguro a máquina ou o computador, a primeira palavra que escrevo é "fogão". Funciona como meu código de acesso , meu referencial, minha garantia de que posso participar da brincadeira e dizer simplesmente que dona Jandira adora um fogão.

Vencido o desafio da fala, enfrentei (e enfrento até hoje) desafio pior e mais devastador. Escrever foi a tábua na qual me agarrei para não ser considerado um idiota. Mas o ato e a prática de escrever poderiam me dar a mesma condição, com abomináveis agravantes. Escrever é verbo transitivo – segundo aprendi na escola. Pede objeto direto. Escrever o quê?

Não podia continuar enchendo páginas e páginas com uma única palavra. (olhando em retrospectiva, acho que fiz o primeiro poema concreto da história humana). Ao chegar à última página do tal livro verde – e antes de passá-lo a máquina -senti necessidade de continuar escrevendo. Não tinha qualquer noção de técnica literária, nem sabia que isso podia existir. Escrevia como falava, ou melhor, como desejava falar, se pudesse.

Daí a minha surpresa quando o Paulo Francis, numa daquelas vinhetas com que terminava seu "Diário da Corte". Já tendo resenhado dias antes um dos meus últimos romances, soltou aleatoriamente esse comentário: "Cony escreve como fala, dá a impressão de que está conversando só com a gente". O comentário do Paulo, na hora, me pareceu elogioso. Depois reparei que era restritivo. Afinal, era isso o que pretendia desde o dia em que, no meio de outros meninos, quis dizer uma coisa e acabei dizendo outra. Não tive culpa de não ser entendido. Tampouco é importante ou necessário que os outros me entendam.

O verbo "escrever" pode ser transitivo, pede um objeto de ação. Mas para mim, depois do amargurado corpo-a-corpo com as palavras, tudo me parece lucro. Tive inveja da chuva quando aprendi, na velha Gramática, que o verbo chover, além de não ser transitivo, é impessoal. Evidente que chover só pode ser chuva. E não se diz eu chovo, tu choves. Só existe o "chove", uma ação completa em si mesma.

Gostaria de ser impessoal e intransitivo. Simples como a chuva que chove. Para isso, precisaria ser uma terceira pessoa e acredito que é em busca dela que escrevo. Terceira pessoa que ainda não encontrei. Mas insisto em continuar procurando.