ENCONTRO MARCADO    
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AUTRAN DOURADO

"Criado em Monte Santo, uma cidade do sul de Minas Gerais, quando criança não tinha o costume de ler até que por insistência de uma empregada analfabeta de sua casa, Autran passa a pegar os livros da biblioteca de seu pai, um juiz, e ler para ela. No entanto, tais livros eram difíceis para a sua compreensão, portanto Autran Dourado começou a inventar as histórias fingindo lê-las. Desde então sua imaginação tomou rumos incontroláveis ao ponto de hoje dizer que sua imaginação o deformou tanto que às vezes não sabe se determinada situação ocorreu realmente ou foi simplesmente inventada.(...)

Apesar de ter vindo morar no Rio de Janeiro em 1954, quando trabalhou como taquígrafo profissional, assumindo mais tarde a Secretaria de Imprensa do governo de Juscelino Kubitschek, não se tem em sua obra, nenhuma referência a essa cidade. "Não viverei mais com a visão do horizonte barrada pela Serra do Curral. Mas levarei Minas comigo, como o rio que para ser fiel à sua fonte toma a direção do mar". O universo mineiro perpassa sua obra que a partir de "Ópera dos Mortos" toma corpo através da cidade mítica de Duas Pontes. Como alguns autores latino-americanos – poderíamos citar, Gabriel García Márques, Juan Rulfo, Juan Carlos Onetti – através de uma cidade imaginária, criam microuniversos que adquirem estatura universal. Os romances de Autran Dourado, apesar de se fundamentarem em personagens de profunda densidade psicológica, não se incluem dentro do romance psicológico tradicional porque a forma de narrar foge à marca dos módulos intimistas. O monólogo interior, o diálogo incluso são recursos que o autor utiliza para fazer com que o personagem fale, pense e veja sem no entanto ter que recorrer ao travessão ou às aspas. "Sthendal, Samuel Beckett, já usavam este recurso do diálogo incluso. Como já disse, você não consegue inventar muito na literatura." A Barca dos Homens (1961) é a crônica de um semi-louco – Fortunato – onde o autor utiliza a técnica do "fluxo de consciência" onde a livre associação de idéias cria uma sintaxe caótica, assumindo aspectos joycianos.

Seus personagens se repetem, os temas são quase os mesmos porque para Autran Dourado o escritor na verdade tem no máximo uma dúzia de temas e de metáforas que fica repetindo ao longo de sua obra. O personagem Lucas Procópio, por exemplo, que surge no romance Ópera dos Mortos, anos depois terá uma história contada num romance intitulado com seu próprio nome. Teia, metáfora usada para dar título a sua primeira novela, teria relação com o título de um outro romance seu, O Risco do Bordado.

Mesmo já tendo uma obra imensa, Autran Dourado não pára de escrever. "Escrevo porque não sei fazer outra coisa e porque eu não paro para pensar nesta pergunta".

Trecho retirado de depoimento à Lilian Fontes in: "Rio Artes" nº 23, 1996.