ENCONTRO MARCADO    
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ARTUR DA T?VOLA

"Eu sou uma pessoa que tende para a paz e vive metida em 500 mil atividades. Trabalho muito, escrevo três artigos por dia. Um já seria suficiente, mas escrevo três. Faço um programa na Rádio MEC, tenho compromissos com meu editor de livros, preciso dedicar uma boa parte de meu dia a ver televisão e, como cidadão, sou político. Pertenço a um partido e isso gera uma porção de compromissos, solicitações. Foi sempre assim. Apesar de tender para a paz, dou um jeito de que as coisas fiquem movimentadas. Escolhi minha forma de vida. Não foi uma imposição de fora para dentro. Em 76 ou 77 eu decidi viver de escrever. Foi uma decisão difícil e tive que orientar toda a minha vida para isso. Eu dirigia uma empresa de vídeo, larguei, tive uma diminuição salarial, mas fui viver de escrever. E valeu. De lá para cá saíram meus livros, o resultado desse tipo de vida floresceu e ocupou demasiadamente meu tempo. Houve também uma fase de crise, de deterioração salarial, o que sempre nos leva a trabalhar mais. (...)
Particularmente, as novas idéias do século 20 entraram em mim mais tranqüilamente. Não cheguei a ser rigidamente marxista porque fui muito marcado pelo cristianismo. A ligação do cristianismo com a mudança social veio se dar 20 anos depois, mas na época da minha formação, se chocavam de frente. Eu tinha as duas e intimamente alcançava a síntese possível. (...) A vida não é um lugar onde de repente cessam as tensões e acontecem estados de felicidade, de harmonia plena. Sua única regra é a luta. E eu me exercitei nessa luta. Pelas razões da minha vida. Porque fiz e faço política. Porque me analisei e tenho o pensamento oriental dentro de mim. Há uma pequena passagem do Zen que sintetiza muito bem isso e que eu usei no meu último livro: "Nem entender, nem desistir". (...)
Eu hoje sou mais prudente. Medo? Não. A certeza de que é com prudência que se conduz o processo. Tenho sentido que a luta pela justiça social é uma luta do nosso tempo, das mais fundamentais para o ser humano. Sobretudo no Brasil, que não pode conviver com esses índices absurdos de iniqüidade social. Nenhum país pode. É preciso encontrar as formas de atenuar esses índices, de colocar o homem como resultado do seu trabalho. Isso para mim, amigo, é uma coisa tranqüila, a que se pode chegar de mil maneiras. Como, não sei. Antes eu achava que sabia. Hoje, não sei se o que parece lógico é viável e se o que é viável é eficaz. Esse é o grande enigma."

depoimento publicado na revista "Manchete", em 1983