ENCONTRO MARCADO    
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ARMANDO NOGUEIRA

Urubu

Numa conversa, meio sem assunto, um amigo me pergunta se eu gostaria de voltar ao mundo, noutra encarnação, como tenista ou como jogador de futebol. Pra ser franco, nem uma coisa, nem outra. Se outra vida me fosse dada viver, mais adiante, eu preferia chegar à terra na pele de um urubu. Não, pra viver comendo porcaria, nem pra andar de luto fechado. Mas, pra voar — e voar bem. Falo com a autoridade de quem vive voando de ultraleve, e sempre de olho na arte de planar que a natureza concedeu a esse navegante dos ares.
Entre os seres vivos capazes de voar, nenhum chega aos pés do urubu. A criatura é a própria serenidade. Não comete uma bravata, sequer. Piloto de asa delta, piloto de planador, piloto de ultraleve, quem curte uma térmica, vai firme nas águas do urubu. Onde houver uma bolha de ar quente, ali estará, com certeza, um urubu, planando, sem bater asa, uma única vez.
A gaivota é quem mais se aproxima do urubu em matéria de placidez.
Urubu não tem pressa, jamais. O negócio dele é dar asas ao vento. Voar de puro passatempo. A borboleta deve morrer de inveja do urubu. Enfeita-se toda. Arabescos coloridos. Cada asa parece um vitral de igreja. Mas como voa mal! Vai aos solavancos. Vôo soluçante.
Adulto, poético, angelical é o planeio do urubu. Quando eu passo por um urubu, no meu ultraleve, ele me olha de través, dá de ombro, desdenha do meu vôo artificial e vai em frente, movido a milagre.
O vôo do urubu é o vôo mais solene que existe. Luto fechado, coisa nenhuma. Urubu vôa de traje a rigor.