ENCONTRO MARCADO    
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ARIANO SUASSUNA

De Frente para o Passado

Mesmo tendo seguido um caminho mais místico, em textos minados por simbolismos e crenças populares, Ariano Suassuna pertence ao momento literário de 30, não apenas por ambientar seus romances, suas peças e seus esporádicos poemas no sertão nordestino, mas principalmente por escrever Brasil. Os seus livros são produtos de um Brasileiro (a maiúscula expressa a altivez nacionalista de seus personagens) que se sente incorporado a uma geografia particularizada e particularizante.
Assim como para os romancistas dublês de sociólogos que o precederam, o seu conceito de Brasil é o triangulado (ibérico-africano-indígena), anterior portanto à concepção polifônica que marcou a geração do segundo pós-guerra (à qual cronologicamente ele pertence), quando a pluralidade de nossa composição étnica passa a invalidar uma visão parcial do país.
Há em seus livros um culto das raízes. Quaderna, o narrador de A Pedra do Reino, se sente o ponto de confluência da história nacional em sua versão nordestina. Vivendo sob a influência da divindade solar durante o meio-dia, que é o momento medianeiro por excelência, ele figura como elo entre uma visão heróico-idealizadora e uma social-realista (ou seja, entre José de Alencar e Aluísio Azevedo), assumindo assim sua natureza intermediária – própria da raça castanha, João Grilo, o astuto caboclo de Auto da Compadecida, também se encontra nessa latitude fronteiriça, desempenhando o papel de um novo Odisseu que vence as adversidades pela inteligência matreira.
Esse desejo de conservação de uma identidade popular se faz presente na condição herdável das posturas. Os personagens sentem atrás de si o peso de um sangue histórico e heróico – em O Rei Degolado, Quaderna, no segundo depoimento ao juiz, valoriza os mortos que vivem em seu sangue. Tal princípio de resgate do passado se manifesta no próprio trabalho criativo de Suassuna, que dá espessura literária a obras coletivas de cantadores, a escritores ligados à sua terra ou a clássicos de origem ibérica presentes no imaginário sertanejo.
Funciona ele como um ímã agregador de partículas dispersas em um texto que recusa a originalidade individualista, tida como burguesa, para ver a literatura como experiência de fundação de um Brasil literário de onde ficam taticamente banidos os componentes estrangeiros por sua força centrífuga.
Perfil retirado da "Revista Bravo", nº 8 – ano 1, p.68.

"Sou o oitavo filho de João Suassuna e Rita Suassuna. O oitavo irmão de uma família de nove. Eu sou o mais novo dos Suassuna homens. Depois de mim tem uma mulher. Sou fundamentalmente um escritor. A rigor não deveria nem ser secretário, essa não é minha vocação fundamental. Agora, como tenho idéias sobre várias artes – fui durante muito tempo professor de Filosofia das Artes – então achei que como secretário poderia prestar um serviço a algumas áreas das artes brasileiras marginalizadas e abandonadas. Por isso aceitei o cargo para qual o governador Miguel Arraes me chamou. Aceitei porque era para trabalhar com ele, pois ele tem uma identificação muito grande comigo. Ele procura, no campo da política, o nacional e o popular. Exatamente o que procuro no campo da cultura."
Auto-retrato extraído de uma entrevista publicada no "Diário do Nordeste", Fortaleza/CE, 13 de maio de 1998