ENCONTRO MARCADO    
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ANA MIRANDA

Meu nome é Ana. Sou escritora, tenho um filho, publiquei livros de poesia e novelas. Venho de uma família que começou no Brasil com um missionário jesuíta que teve dois filhos com uma indígena. Sei pouco sobre a história de meus antepassados mas sem dúvida tenho, como a maioria dos brasileiros, um pouco de índio, negro, judeu, mouro e português, origens das quais muito me orgulho. Meu pai era engenheiro agrônomo, membro da aristocracia rural do Nordeste; minha mãe, de uma família pobre de artistas e inventores, uma poetisa, exímia bordadeira e antiquária. Ainda que eu seja alguém sem raízes, por ter vivido em cidades diferentes, me sinto brasileira, de um Brasil miserável, poético, belo.
Tenho diversas atividades. Gosto de desenhar e o faço com freqüência, num livro de páginas brancas que hoje me parece um diário de meus sentimentos. Faço curtas em vídeo, muito amadores, sobre meus amigos. Escrevo meus livros, poesias, anotações e coisas encomendadas por outras pessoas. Vou ao supermercado, à farmácia, à padaria e gosto de caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro. Faço isso muitas vezes, sou capaz de caminhar vinte quilômetros sem sentir cansaço. Aspiro a excelência física e espiritual, mas a busco inutilmente.
Sofro do mal de abandono, de melancolia, da ânsia de partir, das maldições femininas (a maldição doméstica, a maldição do amor, a maldição da sedução, a maldição biológica), da mania de esperança, da compulsão de escrever, de meu temperamento impetuoso, do sonho, da não-aceitação da morte. Estou sempre em busca de solidão, mas nunca a encontro porque minha mente está repleta de pessoas, reais ou fictícias. Não tenho vida social. Por sorte fiz muitas amigos, mas nunca os vejo nem lhes telefono, apesar de amá-los profundamente e sentir-me amada por eles.
Sou infeliz, ainda que hoje tenha uma vida pessoal harmoniosa e um temperamento bem humorado. Talvez esta infelicidade seja o motivo pelo qual escrevo (Borges dizia que a literatura nasce da infelicidade), ou vice-versa. Não gosto de meus livros nem da maneira como escrevo, demasiadamente rebuscada. Gostaria de ter um temperamento mais reflexivo, ser mais abstrata. Gosto de me fazer de tola, não por "ironia socrática", mas sim por um distúrbio de comportamento incontrolável destinado a esconder minha ignorância quando a realidade a revela.
O que mais quero fazer na vida é ler, talvez porque me dá a sensação de que já não sou eu mesma. Tenho um profundo fastio de ser somente uma pessoa; queria ser muitas. Não gosto, enfim, de falar sobre mim mesma, e talvez estas palavras são na realidade para esconder quem sou, do mesmo modo como minhas novelas.