ENCONTRO MARCADO    
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RAQUEL JARDIM

... "Pouco importa, na verdade, a designação que se dê ao excelente texto de Rachel Jardim: estamos inequivocadamente diante de literatura, ouvindo um legítimo escritor que através de sua imaginação fala-nos do tempo que flui, da decadência da matéria e dos sentimentos, das perdas inexoráveis. E sobretudo da solidão e da morte. Num tom elegíaco, muito seu, Rachel transfigura o sentido da vida com ótica denunciadora e madura de quem aprendeu finalmente a pegar pelos chifres o minotauro que acompanha cada ser humano em sua trajetória para a morte".

(Myriam Campello - O Globo, 25.05.1980).


"Se é mesmo verdade que Proust, Joyce e Virgínia Woolf teriam assassinado a ficção com seus experimentalismos, Rachel Jardim parece saber disso melhor do que ninguém. Convicta do suposto obsoletismo de seu ofício, ela dedica-se a um tipo de literatura deliberadamente avesso a qualquer inovação formal. O que em absoluto significa falta de ousadia: por paradoxal que pareça, a originalidade de seu texto brota exatamente dessa rebuscada ausência de originalidade. Nas palavras de uma de suas próprias personagens "... a senhora é tão estudada que consegue ser absolutamente natural."
Enfastiada, Rachel não tem pudores de declarar, pela boca de suas criações, coisas como "fico cada dia menos interessada nos destinos do Brasil".
Feminina, dispõe graciosamente nos recantos de sua prosa uma infinidade de licoreiras, buquês de flores, toalhinhas de crochê, compoteiras, roseiras, cadeiras de balanço, brisas primaveris, delicados cristais, foullards esvoaçantes, sedas e tweeds. Narcisista, concentra-se em personagens, como ela, suavemente enfastiadas, feminíssimas em suas leves sandálias isadoradunquianas, roupas folgadas diluindo as redondezas inevitáveis dos 50 anos. A distância que separa autor e personagem é esmeradamente tênue, como tênue são os limites entre ficção e realidade, evocação memoralista e alquimia ficcional, farsa gentil e vida crua.
A sutileza que um leitor distraído ou apressado custaria a perceber é que Rachel Jardim tem plena consciência disso tudo. Inclusive da sofisticada linhagem ficcional a que pertence - haja vista a referência a Mrs. Dalloway, de Virgínia Wollf, no conto Em Uso; ou a revisitada Katharine Mansfield de Felicidade, em A festa dos 50 anos.
Consciente da consciência da autora, o leitor localizará então, por trás do açucarado licor de anis que lhe foi servido, um travo amargo de absinto. Lentamente, a invisível cristaleira revela as rachaduras de seus cristais. A segurança na condução das narrativas, temperada aqui e ali por um delicioso humor levemente autopunitivo, acaba por intrigar: a caretice toda seria, assim, uma forma de rematada loucura?
Pode ser. Difícil seria não encontrar algum conforto no universo faustosamente caseiro de Rachel Jardim, neste livro que cresce, quase imperceptível, até explodir em gran-finale no brilhante texto final, Aparição. Pode-se fugir desta sala de jantar, como o marido filosófico de A visita do dono do circo. Pode-se procurar a inversão, o oposto alucinado de autores como Hilda Hilst ou João Gilberto Noll.
Mas é tranqüilizador saber que alguém tenta ordenar o caos. Embora a falsa eternidade, com o assustador discretamente implícito na doçura. Talvez sem saber, Rachel Jardim escreve histórias de horror. Esse belo horror de estar vivo".

(Caio Fernando Abreu - Folha de São Paulo, 17.01.1982).



... "Se perguntassem qual o valor mais interessante da experiência de Rachel Jardim, diria que é a sua investigação acerca do humano (e não do humanismo), tão aviltado pelo apequenamento generalizado, de um tempo de miríades de "homens sem atributos". Esta riqueza e inocência do contraditório, característicos do humano, como já o notaram Goethe, Proust, Dostoiewski, entre outros, é um traço do talento de Rachel".

(Rui Carlos de Matos - Folha de São Paulo, 20.07.1980).