ENCONTRO MARCADO    
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RAQUEL JARDIM

Estreei tarde na literatura, já com mais de 40 anos, em 1973. Ao pesquisar agora material para esta homepage da IBM, levei um susto. Fui mexer com folhas amarelecidas, fragilíssimas, parecendo mais velhas do que as faixas que envolvem as múmias do Egito.

Estavam jogadas em pastas, na mais completa desordem, e fotografias (minhas?) emergiam das ruínas. Quis me livrar logo desse insuportável cheiro da memória, devolvendo tudo do armário onde estavam fechadas.
No entanto, toda a minha obra é baseada na memória e no tempo. Descobri, porém, que jamais poderia ser arquivista. Memórias acumuladas em papéis dão um testemunho irritante da nossa decadência, fazem mal à alma.
Escrevi meu último livro em 1985. Foi O penhoar chinês, cujo enredo veio à tona a partir da descoberta de um bordado não terminado, tecido pela personagem ainda criança e sua mãe, por volta dos anos 30. Talvez seja este o meu livro preferido e o que considero mais perfeito. Lembro-me que, ao escrever sua frase final, tive a sensação de que aquele seria meu último livro, o que provocou um fundo suspiro de alívio. Proust também teve essa sensação ao escrever a última linha da Recherche. Só que morreu logo depois, e eu não.

Encontrei entre as páginas amareladas a carta de uma amiga, escrita depois da leitura de O Inventário das Cinzas. "Você perdeu o seu senso de humor?" Não querida, nem por um minuto (o próprio título do livro é uma frase de humor), só que ele foi ficando mais sutil, mais perverso. Você já leu o último volume de Recherche? Humor mais negro impossível.

Talvez por causa dessas considerações sobre humor, tenha organizado um grupo para ler Proust. Temos rido muito em conjunto (rir sozinho é, às vezes, um pouco triste). Ensinar as pessoas a lerem Proust tem sido bom. Difícil seria ensiná-las a ler Rachel Jardim.