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PIETRINA CHECCACCI

Pietrina nasce em Taranto, província italiana da região de Puglia, em 16 de julho de 1941. Muda-se para o Brasil na adolescência, em 1954, fixando residência no Rio de Janeiro. Menina precoce, curiosa, leitora ávida de tudo o que lhe cai nas mãos, adquire um sólido embasamento cultural, que lhe proporcionaria os subsídios para a pesquisa e para as realizações artísticas.

No Rio, estuda na Escola Nacional de Belas Artes durante seis anos, de 1958 a 1964. Nessa ocasião, ganha medalha de ouro na Universidade do Brasil e, no ano seguinte, 1965, recebe medalha de ouro no curso de especialização de pintura. Desde a infância, Pietrina já demonstra todos os dons que uma pintora precisa para ser um grande expoente das artes plásticas. Seus cadernos escolares, além das lições, têm milhares de desenhos, que são sempre elogiados pelos professores e familiares, que a motivam e incentivam.

O ser humano é sempre o seu tema principal e sua pintura tem, a princípio, interesse no contexto social. São cenas de fábricas, lavadeiras, o povo em suas tarefas diárias. Seus trabalhos, com cores fortes, estão, de certa forma, ligados ao expressionismo. Numa segunda fase, começam a aparecer formas místicas como anjos barrocos, crucificações e a criação, abordagens sobre as leis do Universo. No fim dessa fase, Pietrina critica a sociedade com obras como a dos homens porcos, os casais eróticos, em geral óleos e desenhos com cores pesadas, em especial utilizando muito as cores preta e vermelha. Na etapa seguinte, substitui o óleo pelo vinil e acrílico. Nessa fase, 1968, aparecem os estandartes com tintas limpas e chapadas. E aparece o homem no seu dia a dia: no trabalho, com a família, ou assistindo a um filme na televisão.

A partir dos anos 70, simplifica seu trabalho com uma beleza estética sem mensagens, dionisíaco, onde há predominância de partes do corpo humano. Em meados dessa década, o corpo humano se torna abstrato e, apesar de mantê-lo intelectualmente intacto, mostra partes aproximadas como um umbigo, uma parte do nariz e, no final da década, figuras fragmentadas. É o lixo-homem, o homem em rochas calcificadas. O corpo é uma peça da paisagem deserta onde predominam os ocres e os cinzas. No final dos anos 70 é a vez do Tempo da terra. Pés emergindo da água e o corpo emergindo da terra. As cores utilizadas são tons de verde azul, branco e ocre. Após essa fase, os corpos se agigantam e passam a ser vistos pelo avesso, visceralmente. São as Carnações.
No início dos anos 80, a emoção cede à razão e voltam as figuras como o ser humano sofrido, maltratado pela vida e pelo próprio homem, como em Sangue entre os dedos dolorosamente belos. Nesta obra, ela retrata a violência do dia a dia, na realidade mostrada ao nosso redor, na cidade, no cinema e na televisão. Apesar do sofrimento continuam existindo sensualidade e erotismo, com corpos largados e prazerosos.

Em 1987 a escultura passa a interferir nos elementos corporais, desta vez de forma jocosa, nas obras de contra peso, instáveis e móveis em fibra de vidro laqueadas em branco, vermelho ou preto: Bundas, Coração no Peito, Fio Dental. Em 1989 a série Mulheres de luz, em resina poliéster e luz, colocam a possibilidade da beleza gratuita e descompromissada, sem explicações éticas ou intelectuais.

De 1990 a 1994, Pietrina inicia as séries de obras Da terra e do espaço como um contraponto do ser humano em relação ao universo, com imagens de planetas e sóis. O próprio corpo é um planeta, um asteróide levitando o espaço e espalhando pelo universo sua semente.

A partir de 1994, esta última fase retorna à terra fertilizando-a em formas vegetais/humanas que começam a brotar em flores. Segundo relato da própria artista, as flores foram aparecendo cada dia mais e com maior intensidade, até se transformarem em rosas. Rosas de todas as espécies, formatos e cores, inicialmente terrestres, depois com variações: no céu, no mar onde a pintora-escultora, entrelaça, de forma incrivelmente delicada, membros do corpo humano entre as rosas. A fase das rosas é de extrema delicadeza e beleza, pois as flores parecem estar saindo de um espaço vazio e dirigindo-se para o apreciador.

Como ela mesma disse "quando acabo de completar uma obra, chamo quem estiver na casa ou no estúdio para vê-la, apreciar e dar nome e depois a coloco em exposição permanente em meu atelier para ser apreciada e eventualmente vendida". Nas esculturas em resina, todas as cores são utilizadas e nas obras em metal fundido polido em dourado ou patinas, novamente o corpo humano predomina no trabalho da artista.

Na escultura, as rosas apareceram enormes, em tecido de metal e talos espinhosos de bronze, miolos sutis com elementos do corpo que só eventualmente são vistos. No final da fase das rosas, a pintura e as aquarelas entram pelo talo dilacerando-o e mostrando que dentro ainda é rosa e pelo avesso há pétalas com superfícies espinhosas, peludas ou pontiagudas.

Em 2004, em releituras, as esculturas recebem tratamento pictórico de céus, nuvens e a própria terra vista do espaço. É nesta série que se explicita o principal argumento de toda a sua obra: o ser humano e a terra; a vida e a morte.
Em 2006, suas pinturas abordam água e corpos nela parcialmente mergulhados reportando realidades paralelas: o corpo deformado na água, no real e no refletido em sua superfície, mostrando ângulos invisíveis. Ondulações se misturam a elementos corporais em azuis e verdes quase perdendo sua conotação figurativa. A água, a natureza e o humano fundindo-se em formas cada vez mais livres, onde o expectador é chamado para dar sua própria interpretação. Na escultura, em paralelo, as obras são executadas em materiais inusitados e “poveri” como plástico e microfilme em PVC, garrafas pet derretidas e resinas translúcidas retomando o tema: humano e água.
Em maio de 2008, May Martins, cenógrafa da novela Ciranda de Pedra transmitida pela Rede Globo convidou Pietrina para criar a escultura que dava nome à trama.