ENCONTRO MARCADO    
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MARCIO SOUZA

O Fim do Terceiro Mundo
(romance)

"Sim, escrevo romances.
Romances no século XX não deixam de ter algo a ver com a paleontologia.
Quem escreve romances hoje em dia deve se sentir um pouco como aqueles pescadores da ilha de Madagascar que pescaram em 1938 um celacanto, muito bem de saúde, nadando no oceano Índico.
Mas, mesmo aceitando que o romance é uma espécie a caminho da extinção, ou já totalmente extinto, não creio que o seu desaparecimento tenha alguma semelhança com a pressa dos sáurios em sumirem da face da terra. Essa história da morte do romance, se tomarmos como exemplo certos espécimes do gênero, está mais para pássaro doido que para cataclismos do período cretáceo.
É por isso que todas as vezes que começo um romance, não demoro muito para me dar conta de que estou cometendo um ato exótico e extemporâneo. Sento-me à frente do teclado do micro e me deixo ficar vendo o cursor pulsar. Onde está o velho deslumbramento? Para onde foi o prazer de uma história bem-feita, as leituras que fascinavam por evocar outras existências, outros universos? Que fim levaram todas aquelas palavras a serem urdidas, tão calorosas e ressoantes, a serem metamorfoseadas em literatura?
Já publiquei muitos livros e não é agora que vão me fazer aprender que a minha alegria bárbara não era mais que uma das manifestações de um mundo primitivo, um rústico produto do atraso.
Gide dizia que o grande segredo de Stendhal era escrever imediatamente, que seu pensamento não parava para se calçar antes de correr. Mas o que fazer nestes tempos em que todos simulam correr para não sair do mesmo lugar?
No entanto, insisto."


Lealdade
(Romance)

"O que foi que me contaminou em Caiena? A imagem que sempre regressa é a do estuário lamacento do rio e seus barcos soçobrados, o fumo das fogueiras e uma dor que era na verdade uma inquietação. Mas havia algo mais: um novo espírito. Sentava-me durante horas, todas as tardes, e lia. Durante muito tempo aqueles livros me ocupariam e desmontariam as minhas certezas ingênuas com o espanto de criptogramas decifrados. Entrara na cidade com a arrogância do conquistador e a deixaria tomado por uma insanidade incurável. Perderia minha timidez e passaria a professar uma delicada paixão, um furor que no princípio muito divertiu o cônego Batista Campos, porque não se parecia em nada comigo. Abismado, tinha lido Voltaire, Diderot, Rousseau, alguns panfletários da Revolução de 1793. Guardei esses volumes numa caixa de madeira que nunca retirei da casa de meus pais. O sol da justiça, da liberdade, da igualdade e da fraternidade. As sendas do amanhecer sob a úmida esperança de mudar o Grão-Pará, o verdadeiro Grão-Pará que não podia ser visto dos salões, das mansões ou das sacristias. Aprendi, assim, que tudo o que diziam daquela filosofia da liberdade, todas as iniqüidades, os horrores, as portas do inferno, era verdade. E a filosofia era um vazio, um nada, um vapor que se colava na minha pele, um vento gelado que me penetrava as narinas. E do fundo de meu coração, reconheci que os velhos inimigos eram na verdade os que golpeavam as tiranias a garantir o triunfo do direito, da justiça, pelejadores da liberdade. E anistiei meus velhos inimigos."