ENCONTRO MARCADO    
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AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

[pelo autor]

Entre escombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
Ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Década perdida

Perdeu-se
            como se perde algo
            no computador,
perdeu-se
            uma década inteira
            abaixo do Equador.

Perdeu-se
            como uma carta se perde
            não no correio, mas
            nas mãos do jogador.

Perdeu-se
            como se perde a moeda
            na rua e os desatentos
            perdem a casa e o amor.

Perdeu-se
            e o pior, sabemos onde
            e como, mas nunca saberemos
            quem a achou.

Perdeu-se
            como se perde:
            o bilhete premiado,
            o best-seller rasgado,
            a carreira abandonada,
            a viagem cancelada,
            o beijo nunca dado,
            na platônica namorada.

Perdeu-se.
Perdi-me.
Perderam-nos.

Não foi um minuto
Um dia, um ano, foram
dez, de vida hipotecada,
que se somaram a outros
de história estagnada.
Por isto, uma questão
vaga no ar perdida:
– por quanto tempo uma vida
pode viver adiada?


Ser nacional

Neruda dizia cansar-se às vezes de ser homem.
É normal.

Às vezes me canso de ser brasileiro
24 horas por dia. É mortal.

Não que de manhã quisesse ser francês
comer baguette; no almoço ser italiano
com ravioli e spaguetti
e no jantar comer frios alemães, belgas,
comer raclete.

Refiro-me à hora dos impostos.
Pago como espanhol e americano,
mas na hora dos benefícios
ninguém me repara os danos.
Já que pago pedágio
com reincidência francesa
gostaria de, além de estrada,
ter previdência privada
e serviço médico à inglesa.
Gostaria como um suíço
de programar a vida, ter controle
da inflação
                   e dos frutos no quintal.
Como japonês, gostaria
de ser duplo:
                   – tradicional
e com um futuro sideral.

Tenho liberdade física, individual
para fazer zorra,
chegar tarde,
furar sinal,
fraudar o imposto,

– mas é isto, ser brasileiro, afinal?

in: Revista Brazil/Brasil. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1992